— Elizabeth! — gritou Miranda
Duncan. — Acorde!
Lizzy Duncan acordou num
sobressalto e teve que se segurar na cama para que não caísse. Ela já deveria
esperar isso acontecer todos os dias, porque Miranda sempre fazia a mesma
coisa. Eram vários gritos até que Lizzy aparecesse para tomar café da manhã e
passasse pela porta para ir ao colégio.
Lizzy quis gritar de volta, mas
Miranda não ouviria. Ela pensava que sua tia não escutava muito bem por conta
da altura em que falava. Fazia todo sentido o motivo de tanto perturbar a
sobrinha.
Era estranho para ela pensar em
tia e sobrinha. Lizzy nunca havia chamado Miranda de tia, em todos os seus
dezesseis anos de vida.
A menina levantou, os cabelos
pretos ondulados caindo sobre suas costas e ombros como uma cascata negra. Ela
sentiu os cabelos ultrapassando o cóccix, lembrando que deveria cortá-los um
pouco antes que mal conseguisse andar.
Ela abriu as cortinas e o brilho do
sol inundou o seu quarto. Lizzy voltou os olhos ao redor de seu quarto e deu um
sorrisinho. A cama estava bagunçada, com alguns travesseiros jogados no chão. Seu
guarda-roupa estava com umas das portas abertas, onde ela conseguia ver várias
fotos que Lucie havia colado das duas meninas juntas. Algumas de suas roupas
estavam caindo por conta da porta aberta e o pensamento de chutá-las para
dentro e fechar a porta com sua bagunça presa lá dentro pareceu uma ideia interessante
para Lizzy.
As paredes brancas do quarto
estavam descascando perto do guarda-roupa, mas a garota decidiu ignorar até que
Miranda lhe chamasse a atenção.
Na cômoda perto da janela, Lizzy
alcançou seu celular. Havia algumas mensagens de Lucie dizendo que tinha uma
grande novidade para ela e de outras amigas que não se importou em ler. Ela não
considerava as outras meninas como suas amigas realmente, porque as piadinhas
sobre ser órfã e não ter feriados em família a deixavam incomodada, apesar de ela
não transparecer.
Tinha uma mensagem também de
Daniel Brant, o garoto novo do colégio que estava há semanas chamando-a para
sair. Ela o achava lindo e bem gentil, mas não tinha qualquer interesse
romântico no garoto. Depois de sua decepção com Nick Wayne, o melhor era ficar
fora de qualquer tipo de relacionamento amoroso. Ainda era só uma menina
descobrindo o amor e sofrendo com suas decepções.
Lizzy colocou o celular de volta
na cômoda e saiu do quarto. Tomou um banho rápido para que Miranda não a
importunasse novamente. Voltou para o quarto e pegou uma regata cinza, jeans e
tênis. Apesar de Nova York no mês de abril estar perdendo seu clima cinzento e
dando indícios do início da primavera, ainda tinha uma temperatura baixa lá
fora e alguns ventos. Por isso, ela alcançou uma jaqueta jeans escura e a
vestiu.
Miranda gritou novamente e Lizzy
fez careta. Não fez questão de arrumar a cama ou deixar seu quarto mais
organizado. Alcançou a mochila jogada no chão perto da cama, pegou o celular de
novo e desceu as escadas até encontrar com a tia na cozinha, servindo a mesa.
Elas moravam em uma casa simples
e pequena no Brooklyn, de dois andares e uma pintura péssima. No andar de cima,
estavam o quarto de Lizzy, a suíte de Miranda e um banheiro social. Eles
ficavam divididos por um corredor estreito, que era marcado em suas
extremidades por um parede com um quadro horroroso de flores e a escada que
levava ao andar debaixo, que continha uma pequena sala de estar com dois sofás
marrons e uma televisão que ninguém usava e a cozinha que Miranda insistia em
fazer sua comida péssima.
Lizzy sabia que não deveria
criticar a comida, até porque muitos não tinham nem aquilo para comer. Mas ela
duvidada que alguém preferisse comer aquilo a morrer de fome. Ela deu uma
espiada na mesa, que contava com uma panqueca feia e meio queimada e um suco
que ela julgou ser de laranja, mas estava mais perto da cor de água do que de
laranja.
Miranda tinha uma xícara em suas
mãos. Lizzy sentiu calafrios ao lembrar do gosto do café horrível da tia. Ela
tentou tirar isso da cabeça lembrando do delicioso café que amava do Starbucks
e do Mandy’s House. Lizzy acreditava que as pessoas dividiam suas vidas entre
ter alguma sorte e algum azar. Mas quando se tratava de Miranda e sua vida
naquela casa, ela jurava que sua vida era marcada somente e puramente por azar.
— Sempre atrasada — observou
Miranda. — Sente-se e coma.
Lizzy fez careta ao olhar para a
panqueca.
— Sem fome — respondeu ela, já
esperando ser reprimida por Miranda.
— Não existe isso — retrucou ela,
como o esperado. — Coma.
Antes que Miranda pudesse dar
mais uma ordem à Lizzy, ela saiu correndo da cozinha, atravessou a sala de
estar e passou pela porta de entrada. Ela pensou que ouviu a tia gritar, mas
ignorou. Era sempre a mesma coisa.
A garota desceu as escadas e se
encontrou na calçada da rua. Ela olhou para o lado a tempo de ver Lucie Brown
parada em frente à casa dela, que ficava ao lado da casa de Lizzy.
Diferentemente da casa de Lizzy, a casa de Lucie era maior e tinha a pintura
conservada. Aliás, tudo na vida das duas meninas era diferente.
Lucie era a única filha de dois
pais amorosos. Por ser a única, era mimada sempre e seus pais procuravam
qualquer maneira de agradá-la. Só o quarto de Lucie era todo enfeitado, com
escrivaninha, uma cama enorme, um guarda-roupa cheio de roupas que Lucie comprava
sempre, quadros por todo o quarto com fotos e frases inspiradoras. Ela ainda
tinha uma cômoda que continha alguns livros, mas ela não lia nenhum. Segundo
Lucie, isso dava um ar de intelectual ao quarto.
A amizade das duas era uma coisa
que muita gente não entendia. Enquanto Lucie era toda colorida, com seu cabelo
preto sempre com o cortado acima dos seios (maiores que o de Lizzy, porque o
mundo continuava a ser injusto), os brincos dourados sempre enfeitando a
orelha, maquiagem rosa clara nas pálpebras e rímel nos cílios e,
principalmente, um vestido branco com algumas flores na barra, Lizzy era
simplesmente preto e branco.
Não que ela não fosse vaidosa,
mas não tinha qualquer vontade de se arrumar para o colégio infernal. Tudo o
que ela queria era enfrentar seu segundo ano em paz para que arrumasse alguma
maneira de conseguir ir para a faculdade depois que completasse o ensino médio.
Além do mais, Lucie tinha uma tendência a querer agradar as pessoas e fazer com
que todos gostassem dela.
— Lizzy! — gritou Lucie, tirando
Lizzy de seus devaneios. — Ainda está dormindo?
Lizzy se espreguiçou.
— Queria muito — respondeu ela.
— Onde você vai parar, meu deus!
Lizzy não respondeu, apenas riu.
Ela andou até o encontro de Lucie e ficou do lado. Talvez a única coisa que
tivesse de semelhante entre as duas era a baixa estatura. Lizzy ria toda vez
que se lembrava de quando as duas entraram no primeiro ano do ensino médio e
Lucie usou uma sandália de salto alto no primeiro dia de aula porque naquele
momento ela era definitivamente uma adulta entrando no período mais difícil da
sua vida. Começando a ter sua independência.
Ela havia caído naquele dia e
nunca mais usara salto alto de novo no colégio.
— Minha mãe achou umas coisas
hoje — disse Lucie, no caminho. — Eram da antiga moradora.
— Alguma coisa valiosa que eu
possa roubar de você depois? — quis saber Lizzy.
Lucie olhou para Lizzy,
reprimindo-a.
— Não, sua boba! — negou ela. —
Eram alguns objetos que haviam sido esquecidos em uma caixa no sótão. Meus pais
sempre foram preguiçosos para mexer na bagunça do sótão, mas agora que meu pai
conseguiu um novo funcionário na livraria, está tendo mais tempo.
— Ah — disse Lizzy, desapontada. —
Achei que era algo legal.
— Mas tem, sim! — falou Lucie,
empolgada. — Tinha umas roupas pretas, tipos aqueles uniformes de agentes
secretos. E uns acessórios também, que é a melhor parte. Encontrei uns colares
de ouro, Lizzy!
— Espera aí — Lizzy parou,
fingindo estar ofendida. — Você disse que não tinha nada valioso.
Lucie olhou para Lizzy e deu um
sorriso meigo.
— Não
são para vender — disse ela. — Mas você vai ter o seu presente.
Lizzy soltou o seu mais sincero
sorriso.
— É por isso que somos amigas,
Lucie.
As duas meninas de cabelo negro
seguiram pelo Brooklyn durante mais quatro esquinas até que chegassem ao
colégio. Foi ali que elas se separaram e combinaram de se encontrar para
almoçar no Mandy’s House, para que Lucie pudesse contar a grande novidade. Lizzy
ficou desconfiada, pois quando sua melhor amiga lhe chamava para ir a algum
lugar para contar algo, não era uma coisa que Lizzy iria gostar.
Mas por Lucie, Lizzy poderia
pensar se faria o sacrifício que ela provavelmente iria querer.
***
Lizzy e Lucie passaram pela porta
da lanchonete preferida delas e cumprimentaram Mandy, a dona. Elas seguiram
para a mesa habitual delas, perto da janela. A lanchonete era toda branca e as
mesas com quatro lugares num tom marrom estavam dispostas por todo o estabelecimento.
As duas meninas gostavam de sentar nas mesas perto da janela onde, ao invés de
cadeiras, tinha um sofá de canto ao redor da mesa.
Elas pediram hambúrgueres, batata
frita e refrigerante. Lucie ainda pediu de sobremesa uma torta de morango, uma
das especialidades de Mandy.
Lizzy checou suas mensagens no celular,
mas não havia nada de muito interessante. Daniel Brant ainda continuava flertando
com ela com mensagens amorosas e mandando bom dia e boa noite todos os dias, algumas
amigas do colégio perguntando o que ela faria na sexta-feira de hoje e um
menino nerd da sala dela mandando respostas de um trabalho.
— Lizzy — chamou Lucie. — Presta atenção
aqui.
— Chelsea e Stacy estão
perguntando o que eu vou fazer hoje à noite — disse Lizzy. — Estranho. Elas só
me chamavam assim quando tinha festa na casa do Nick.
—
Carol também me mandou mensagem hoje... — começou Lucie, e foi abaixando o tom
de voz. Lizzy ficou desconfiada e começou a estreitar os olhos para a amiga. —
E o Kyle. Ele me chamou e disse para eu te levar na festa que vai ter na casa
do Nick hoje.
Lizzy ficou encarando Lucie até
que ela ficasse com vergonha e desviasse o olhar. Ela estava se segurando para
não gritar com a amiga, pois Lucie era a pessoa que mais sabia da história com
Nick e sabia exatamente a quantidade de vezes que Lizzy havia chorado por causa
dele. Tinha vontade de dar uns tapas em Lucie por ser tão estúpida.
— Você está brincando comigo, não
é? — indagou Lizzy, segurando para que o tom de voz parecesse leve.
— Lizzy, o Nick quer que você vá!
— argumentou Lucie. — Além do mais, o Kyle vai estar lá. Pode ser a minha
chance de reatar com ele.
— Ele só te fez de idiota, Lucie —
Lizzy retrucou, com raiva. — Nick e Kyle se merecem. A gente deveria era ficar
longe deles.
— Ele ainda te ama, Liz.
Lizzy soltou um sorrisinho perverso
para Lucie.
— Ele não
ama ninguém além dele mesmo — ela falou. — E, nunca mais, pense em me chamar
assim de novo.
Lucie se retraiu.
— Acho que devo falar para a Carol
que vou com ela então – disse ela.
Lizzy franziu o cenho para Lucie,
com raiva. Elas sempre saíram juntas, sempre faziam tudo juntas. Mas quando se
tratava de Kyle, a amiga mudava completamente e era capaz de tudo para agradá-lo
e fazer o que ele desejava. Assim como Lizzy havia sofrido as piores coisas com
seu ex-namorado, Lucie também. Na verdade, Lizzy desconfiava que com a amiga
ainda teria sido muito pior, já que Kyle sempre prometera namoro e nunca cumprira.
Nessa situação, ela sabia que não
podia deixar Lucie sozinha. Tinha medo do que poderia acabar acontecendo caso sua
melhor amiga encontrasse o garoto que ela acreditava ser o amor da sua vida e que
ele conseguisse enganá-la mais uma vez.
E conhecendo Kyle como conhecia,
ele só estava usando Lucie para atingir Lizzy, agradando, assim, o seu melhor
amigo.
— Você tem certeza que quer
realmente voltar com o Kyle? — perguntou Lizzy, tentando manter a calma.
— Eu gosto muito dele — respondeu
Lucie. — Esses meses sem vê-lo estão me fazendo mal.
Lizzy suspirou pesadamente. Na
verdade, fazia pouco mais de um mês que Lucie não o via, mas ela gostava de
intensificar as coisas. Lizzy queria pensar que a amiga estava começando a esquecer
o canalha, mas só estava ansiando pelo momento de vê-lo de novo.
— Tudo bem, eu vou com você —
resolveu Lizzy. — Mas se eu ver que estou péssima naquela casa, vou embora na hora.
Lizzy viu um dos sorrisos mais
bonitos de Lucie aparecer no rosto dela.
— Eu te amo!
***
Era quase dez da noite quando
Lizzy se olhava no espelho de seu quarto. Os cabelos ondulados agora estavam
mais lisos, com uma leve enrolada nas pontas. Uma maquiagem pesada se encontrava
nas suas pálpebras, debaixo de um rímel poderoso nos cílios. Muito das coisas
que ela tinha ou havia sido presente de Lucie ou de Nick. A mesada que recebia
de Miranda dava somente para pagar alguns táxis. Ela quase nunca dava nada para
Lizzy, além do necessário.
O vestido preto que ela usava era
simples, feito de renda e com alças bem finas. Ele se ajustava perfeitamente ao
corpo de Lizzy, mas não era todo colado. Era curto, o comprimento chegava até o
meio das coxas dela. Usava uma bota preta de cano baixo com um salto o suficiente
para lhe dar alguns centímetros a mais. Em seus pulsos, estavam algumas
pulseiras prateadas e em suas orelhas pousavam uma argola de cada lado. Os
lábios estavam marcados por um batom claro, já que a maquiagem nos olhos estava
forte.
Lizzy se admirou pela última vez
antes de sair da frente do espelho e pegar o celular. Havia uma mensagem de
Lucie dizendo que já estava esperando na frente da casa dela. As amigas de Lizzy
que haviam mandado mensagem naquela tarde perguntando o que ela faria à noite
mandaram para ela que a festa linda e que ela deveria chegar logo.
Ela respirou fundo antes de sair
do quarto. A única parte que conseguia ser pior do que encontrar seu
ex-namorado depois de dois meses era conseguir sair escondida de Miranda sem
que ela soubesse. Lizzy já havia sido pega algumas vezes, mas nunca quando
estava indo para uma festa e somente quando estava escapando para a casa de Lucie
para dormir lá.
Pegou o celular, colocou dentro
de uma bolsa preta pequena, pendurou a bolsa em um dos ombros e saiu do quarto.
O corredor estava escuro, mas olhando para a porta do quarto da tia, ela viu
por baixo da porta uma luz. Lizzy rezou para que ela não saísse do quarto
enquanto ela tentava sair.
Para ter mais segurança, ela
tirou as botas e saiu andando na ponta dos pés, segurando as botas. Desceu as
escadas lentamente e caminhou para a porta de entrada da sala de estar. Quando
abriu a porta, falou todos xingamentos que conhecia quando ela rangeu. Não ouviu
nada depois disso e seguiu para fora, fechando a porta atrás de si.
Lizzy colocou as botas de volta,
ajeitou o vestido e desceu as escadas. Ficou surpresa ao não encontrar Lucie
esperando como havia prometido. Olhou o celular, mas a amiga não havia lhe
mandado nada. Quando Lizzy tentou ligar para ela, ficou ainda mais nervosa
quando percebeu que estava sem sinal e que a ligação não estava sendo
completada. Por que diabos aquilo estava acontecendo?
Só porque ela não queria ir, tudo
estava acontecendo para que ela não fosse.
Lizzy pensou em ir até a casa de
Lucie, mas não sabia se os pais dela sabiam da festa ou se Lucie também havia
mentido para eles. De qualquer modo, resolveu esperar um pouco. Provavelmente,
Lucie tinha esquecido algo e voltara para buscar.
A rua estava completamente
deserta e mais escura que o normal. Ela sentiu medo de que alguém pudesse estar
escondido e fazer algo com ela, já que ela estava sozinha. Sentiu um vento frio
e estremeceu.
Tentou ligar para Lucie de novo,
mas não funcionou. Com medo, se moveu para voltar para a escada, até que ouviu
o barulho de um latido.
Lizzy contou até dez para se
acalmar, rezando para que não fosse um cachorro grande que saltasse sobre ela e
a comesse toda. Ela sabia que as vezes tinha uma imaginação fértil demais, mas
só de estar naquela rua deserta, seus medos estavam ficando cada vez mais
intensos.
Ao olhar para trás, ela teve a
certeza de que todos os seus pesadelos estavam se tornando reais.
Era uma figura parecida com um
cachorro, mas estava em carne viva. Os dentes estavam afiados e grandes e saía
gosmas da boca da criatura. O tamanho também não era proporcional ao de um
cachorro normal. A criatura na sua frente era muito maior do que um cachorro
normal e Lizzy desconfiava que era somente um pouco menor do que ela mesma.
A criatura tornou a latir para
Lizzy, que se tremeu toda. Indo com seus instintos, Lizzy saiu correndo e
sentiu a criatura correndo atrás dela, latindo sem parar.
Enquanto corria, ela pensava que
estava sonhando, tendo o pior pesadelo de sua vida e jurando que acordaria logo.
Ao mesmo tempo que a adrenalina subia e ela parecia uma maluca correndo pelas
ruas do Brooklyn de salto alto de uma coisa completamente estranha, ela se beliscava
para que aquilo acabasse logo.
Já sentia seu corpo cansado, mas
continuou a correr. Ela pensou que a criatura só não tinha alcançando-a ainda
por causa de tamanho, que cada vez que Lizzy olhava, parecia aumentar mais. Seu
coração estava disparado e as pernas tremendo quando se viu em um beco sujo e
mais escuro que a rua onde estivera alguns segundos antes.
Lizzy não se surpreendeu quando
seu corpo fraquejou e ela caiu no chão. Sentia a respiração acelerada e o
coração parecia que estava prestes a saltar da boca dela. Seu estômago se
revirou com a corrida e ela quis gritar bem alto.
Os cabelos negros, outrora bonitos
para a festa, agora estavam uma bagunça e uma parte deles colados no rosto
suado dela. Sentiu sua cabeça latejar, mas não pode curtir a dor, porque a criatura
apareceu na sua frente.
Os latidos aumentaram e a gosma
branca nojenta se tornou amarela na medida que se tornava uma poça no chão. A
criatura não se moveu, continuava parada latindo para Lizzy. Ela ainda não
tinha reparado nos olhos dela, mas se assustou quando viu que parecia buracos negros.
Músculos foram se formando pelo corpo da criatura e o tamanho dela foi
aumentando aos poucos.
E quando Lizzy pensou que a figura
estranha pularia em cima dela e que iria estraçalhar todo o corpo dela, a
criatura queimou na frente de Lizzy.
Ela soltou um grito e se inclinou
para trás, querendo se afastar. O fogo da criatura se dissipou e atrás do que
antes era a coisa que iria acabar com sua vida, estava o contorno de uma pessoa
alta. Como o beco estava somente com luzes fracas, ela não distinguir muitas
características da pessoa a sua frente. A pessoa que salvara a sua vida.
— Você está bem? — perguntou a
pessoa, e Lizzy percebeu que o tom de voz era de um homem.
Lizzy se encontrava sem palavras.
Ela sentia seu corpo todo agitado, um tremor assombroso se assolava sobre ela.
Ela abriu a boca, mas ela não conseguiu emitir nenhum som. O homem começou a se
aproximar e quando passou por um feixe de luz, Lizzy viu a sombra de um rosto
sério e o cenho franzido. Passou pela cabeça dela que a expressão dele queria
indicar somente curiosidade. Mas quando ela moveu os olhos para baixo e vir uma
lâmina refletir, o som que ela não conseguia emitir, saiu um grito da boca dela
instantaneamente.
Ainda não tinha acabado. Aquele homem
também iria matá-la.
— Ei — ele chamou.
Lizzy queria gritar, mas seu
coração disparando parecia fazer um barulho ensurdecedor. Havia uma barreira
nos seus ouvidos e ela não conseguia ouvir mais nada. À medida que o homem se
aproximava, ela sentiu sua visão ficar embaçada e o mundo todo ao seu redor
começou a girar. Talvez o homem tivesse falado mais alguma coisa para ela.
Talvez ela tivesse tido o seu pior pesadelo até hoje. Talvez ela tivesse
morrido e só agora estava se dando conta.
Talvez... Talvez aquilo fosse
coisa de outro mundo.
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