Lizzy acordou sonolenta, sentindo
seu corpo todo rígido. Ao abrir completamente os olhos, ela se deparou com a
sala de estar de sua casa. Ela estava deitada no sofá e dormira de mal jeito.
Na verdade, parecia que seu corpo
se negava a se mexer. Sentiria dores principalmente em suas pernas, como se ela
tivesse corrido uma maratona durante dias.
Olhou para si mesma. E então se
lembrou da festa. Ainda estava com o vestido preto que escolhera e a bota de
cano baixo ainda estava nos pés. Quando olhou para baixo, viu a bolsa preta
caída no chão.
Lizzy mal conseguia se aguentar.
Sentia-se exausta, não apenas fisicamente, mas mentalmente e emocionalmente
também. Ela já havia lido em algum lugar sobre quando as pessoas tinham alguma
crise de ansiedade ou passavam por uma situação extremamente estressante e
ficavam se sentindo esgotadas de todas as formas.
Então, ela se lembrou. Lembrou de
quando saíra de casa e não havia encontrado Lucie. Lembrou-se de ver uma
criatura horrível e sair correndo. Correra tanto que não sabia nem como havia
conseguido. Por isso se sentia tão cansada e com o corpo tão dolorido. Os
saltos das botas também não tinham ajudado. Deveria ter sido um milagre o salto
não ter quebrado ou ela ter virado o pé.
Lembrou-se também de quando
alguém matara a criatura e a salvara. Por último, lembrou-se da lâmina afiada
que o homem estava carregando e depois tudo ficou escuro. Só que agora ela
olhava para sua casa e não conseguia entender como havia chegado até ali.
— Meu deus, eu fiquei louca! —
disse a si mesma. Lucie sempre dizia que um dia ela acabaria ficando maluca de
vez. E estava certa, porque o dia finalmente havia chegado.
Lizzy se levantou do sofá e
caminhou para a janela ao lado da porta de entrada. O amanhecer estava dando os
seus indícios no horizonte. Ela especulou que não demora muito para que Miranda
acordasse, já que ela sempre acordava cedo da manhã. Mesmo agora que ela estava
desempregada depois de ter sido despedida por mal comportamentos como gerente
de um restaurante em Manhattan.
Ela alcançou sua bolsa e correu
de volta para seu quarto. Ela queria respostas, queria entender o ocorrido, mas
seu corpo pedia arrego. Ao lançar a bolsa no chão, olhou para a cama e não
resistiu. Depois teria suas respostas. Por agora, só queria repor suas
energias.
***
Algumas horas depois, Lizzy
acordou em sua cama. Agora, sentia-se mais descansada e mais disposta do que
horas antes. Sentou-se na cama e se pôs a pensar.
Ela queria acreditar que
adormecera sem ver no sofá por tanto esperar Lucie e teve um pesadelo horrível.
Mas, ao mesmo tempo, tinha certeza de que tudo o que acontecera era real. Ela
havia sido perseguida por uma criatura estranha e nojenta e sua vida somente
foi poupada porque um homem misterioso salvou Lizzy. Queria contar isso para
alguém, mas tinha certeza de que soaria como uma louca.
Lembrando-se de Lucie, correu
para pegar sua bolsa no chão. Abriu-a e alcançou seu celular.
Lizzy quis gritar quando viu
várias mensagens de Lucie que, primeiramente, parecia estar histérica com o
atraso de Lizzy e, depois, parecia preocupada e pedia para que Lizzy ligasse
para ela.
Lizzy até tinha pensado que
poderia ter ido para a festa, bebido muito, ter tido alucinações e que por isso
não se lembrava de como havia chegado em casa. Mas as mensagens de Lucie
indicavam que elas sequer se encontraram.
Ela tinha certeza que surtaria
enquanto não obtivesse respostas.
Lizzy jogou o celular em cima da
cômoda e correu para se trocar. Tirou o vestido e pegou no guarda-roupa uma
blusa preta de mangas curtas, calça jeans e botas pretas. Vestiu sua jaqueta
jeans escura, pegou o celular e saiu do quarto.
Aparentemente, Miranda não estava
em casa, já que a porta de seu quarto estava aberta e não se ouvia nenhum outro
barulho pela casa a não ser os passos pesados e apressados de Lizzy. Sentiu-se
aliviada quando se viu fora da casa, respirando o ar fresco daquela manhã de
sábado.
O relógio no celular marcada
pouco mais de dez horas da manhã. A primeira coisa que Lizzy quis fazer era ir
à casa de Lucie.
Quando tocou a campainha, a mãe
de Lucie a recebeu.
— Oi, Lizzy — disse a Sra. Brown,
seu sorriso mais doce estampando seu rosto jovem.
Lucie tinha os mesmos traços que
a mãe, apenas parecia ser uma cópia mais nova. Mas Georgina Brown era mais alta
e tinha o corpo mais volumoso. Ela estava vestindo uma blusa com mangas que
estavam dobradas até o cotovelo e um pano repousava em suas mãos.
— Oi, Sra. Brown — cumprimentou
Lizzy. — A Lucie está?
— Está dormindo — respondeu a mãe
de Lucie. — Ela ficou até tarde no celular, parecia que estava esperando alguma
coisa.
— Achei que ela tinha saído
ontem.
— Não, ela ficou aqui a noite
toda — disse Georgina. — Eu conseguia ouvir do quarto ela reclamando de alguma
coisa.
Então Lucie não comentara com os
pais que iria a uma festa. Lizzy não pensou o contrário, pois os pais da amiga
eram muita cuidados para deixarem que sua filha de dezesseis anos frequentasse
uma festa em Manhattan que não tinha hora para acabar.
— Tudo bem — falou Lizzy. —
Depois fala para ela que eu estive aqui.
Antes que Georgina pudesse falar
qualquer outra palavra, Lizzy saiu correndo.
Lucie deveria estar muito brava
com ela. Lizzy não a culpava, porque Lucie estivera ansiando um momento para
ver Kyle. Apesar de odiá-lo, Lizzy não queria que a amiga ficasse brava com ela
por causa dele.
Enquanto pensava sobre os
acontecimentos da noite anterior, Lizzy saiu andando pelas ruas do Brooklyn. O
clima estava ameno, o que indicava que o sol estava prestes a afundar em Nova
York, trazendo o clima quente que ela tanto gostava. No fim das contas, decidiu
que não tinha um rumo a seguir, porque não sabia como e com quem entenderia
aquilo.
O homem que aparecera para ela na
noite anterior poderia ajudá-la. Mas ela não sabia nem que aparência ele tinha.
A única coisa que ela conseguia distinguir era a voz dele. Lizzy concluiu que
era a voz de um menino que estava deixando a adolescência e se tornando um
homem. Além disso, se ele estava no Brooklyn naquele momento, tinha grandes
chances de que ele morasse por perto.
Lizzy estava passando pelo Kings
Theatre quando percebeu que já estava bem distante de casa. A Avenida Flatbush
estava movimentada naquela hora e ela sentiu seu estômago roncar quando passou
pela porta do Burguer King.
Estivera tão atordoada com seus
pensamentos que nem se lembrou de comer. E seria uma boa ideia parar para comer
ali se ela não tivesse esquecido seu dinheiro em casa.
— O lanche é realmente ótimo —
observou alguém.
Lizzy olhou para o lado e viu um
homem em torno de uns quarenta ou cinquenta nos parado. Ele contemplava a placa
do Burguer King quando fixou seus olhos em Lizzy. Os cabelos pretos estavam
curtos, com mechas brancas perto da têmpora. Ela conseguiu ver algumas rugas
perto dos olhos castanhos, indicando que ele já não era jovem. Usava uma
jaqueta de couro preta que combinava com o resto de suas roupas pretas. As mãos
estavam dentro dos bolsos da frente da calça e ele soltou um sorrisinho para
ela.
— É, sim — Lizzy resolveu
responder.
— Só não é melhor do que entender
o que te atacou ontem, garota — disse o homem.
Lizzy ficou sem palavras.
— Como você...
O homem tornou a rir.
— Vamos, venha comigo — falou
ele. — Eu vou te contar tudo.
— Você quer mesmo que eu vá com
um estranho para onde quer que seja? — debochou Lizzy. — Muito estranho, não?
Enquanto Lizzy e o homem estranho
conversavam, as pessoas passavam despercebidas por ele. Ela achou que ele
poderia ser o homem que a salvara, mas a voz não passava nem perto de ser parecida.
A voz do homem a sua frente era mais grossa e não o tom ríspido que ele usava
não se parecia em nada com o ‘’você está bem?’’ que o seu salvador desconhecido
lhe perguntara.
— Então você acha que qualquer
estranho saberia do que aconteceu ontem? — perguntou o homem. Então, ele
pareceu se lembrar de algo. — A propósito, meu nome é Agares. Talvez nos
apresentando, eu deixe de ser um estranho.
Lizzy achou o nome bastante
esquisito, porque nunca havia conhecido alguém com aquele nome. Mas sabia que
alguns pais podiam ser bastante desagradáveis escolhendo o nome dos filhos.
— Meu nome é Lizzy — disse ela.
— Ótimo — Agares falou. — Agora
você pode vir comigo, Lizzy. Tenho muito a lhe contar.
Lizzy resolveu se arriscar.
— Você sabe sobre o homem que
estava lá? — questionou ela. — Você o conhece?
Agares bem que tentou, mas Lizzy
percebeu que ele havia mudado a expressão agradável de seu rosto para um...
descontentamento, ela diria.
— Sim — respondeu ele. — Ele
também faz parte disso.
Lizzy ficou ansiosa para
descobrir o que ele queria dizer com ‘’disso’’. Mas a única forma de descobrir
do que se tratava era sair com um estranho. Aquele homem poderia fazer qualquer
coisa com ela se Lizzy fosse com ela. Coisas boas ou coisas ruins.
Mas como não querer ir com a
única pessoa, além dela, que tinha ideia do que acontecera na noite anterior?
— Tudo bem — ela concordou. — Eu
vou com você.
Agares deu um grande sorriso
satisfatório.
***
O pôr do sol invadia a janela
quando Lizzy se deu conta de onde estava. Ela estava deitada em uma cama
enorme, com travesseiros e lençóis brancos. O quarto era todo branco, sem
nenhuma pista de que alguém habitara ali. Tinha um tamanho médio e, além da
cama, havia uma penteadeira com um espelho e, do lado da janela, havia um
pequeno armário.
Lizzy correu para a janela
fechada. Ela julgou estar pelo menos em um terceiro andar de uma casa. Ao
longe, ela via um rio extenso e percebeu que estava em uma doca. Ela não
reconheceu o lugar, mas conseguiu observar que estava em um extenso parque, por
conta do gramado, algumas árvores e até flores.
A última coisa que ela se
lembrava era de Agares. Depois que ela concordara em ir com ele, tudo ficara
escuro. Ela desconfiou que havia sido dopada ou sequestrada.
Correu até a porta perto da cama
e tentou abri-la. Estava trancada.
Lizzy continuou forçando a
fechadura, começou a gritar por ajuda e bateu várias vezes na porta.
Depois de alguns minutos, ela
desistiu. Sentiu a garganta incomodar por conta dos gritos e sentou-se na cama,
passando a mão pelo pescoço. De repente, veio a vontade de chorar e a raiva,
por não saber absolutamente nada do que estava acontecendo. Ela só queria ir
para a casa e fingir que nada daquilo estava acontecendo.
Lizzy passou as mãos pelos seus
bolsos, sentindo ainda mais raiva ao perceber que estava sem seu celular. Se ao
menos pudesse ligar para alguém...
Ela se virou para a porta assim
que ouviu o barulho de que ela estava sendo destrancada. Assim que a porta se
abriu, Lizzy viu Agares adentrando o quarto junto com uma mulher. Ela parecia
não ter mais do que vinte anos. Tinha cabelos loiros cor de palha que desciam
lisos até a cintura dela. Os olhos cinzentos se fixaram em Lizzy assim que ela
fechou a porta atrás de si e parou ao lado de Agares. Seus lábios com um batom
roxo se abriram formando um sorriso.
Ela estava usando um vestido
preto que ia até os joelhos, com uma fenda lateral. Não tinha nenhum decote,
mas também não tinha mangas. Lizzy pensou que ela pareceria uma executiva de
uma empresa de negócios.
— Finalmente — disse Agares,
sorrindo como a mulher. — Seu feitiço durou muito tempo, Blair.
Blair tirou o sorriso do rosto e
olhou para Agares.
— Não critique meus feitiços,
demônio — censurou ela. — Eu posso fazer coisas que você não pode mais.
A palavra demônio ressoou
na cabeça de Lizzy várias vezes. E foi nesse momento que os olhos escuros de
Agares se acenderam em um tom amarelo.
— O que... Como você... — Lizzy
tentou falar.
Agares encarou Lizzy.
— Você realmente não tem ideia do
poder que tem, garota — disse ele.
— Ela parece uma bobinha, demônio
— disse a mulher chamada Blair. — Tem certeza de que é ela? Você já é fraco e
velho.
Agares levantou o braço na
direção de Blair. Lizzy não sabia dar nome aquilo, mas no mesmo instante, Blair
havia se chocado contra a parede branca e caído no chão. Agares olhara com
satisfação para Blair, que o encarava com ódio.
Na mesma hora, Blair revidou o
movimento de Agares e ele se chocou com a parede oposta à de Blair. Lizzy
encarou a situação sentindo seu corpo todo tremer e seu estômago revirar de
ansiedade pelo o que viria em seguida.
— Se vocês quiserem — sugeriu
Lizzy — eu dou licença e vocês podem continuar isso sozinhos, sem que eu
atrapalhe — ela fingiu uma risadinha no final.
Blair e Agares se levantaram, encararam
Lizzy e riram.
— Você é a peça principal, garota
— revelou Agares.
— Meu nome não é garota! — disse
Lizzy.
Blair passou a mão pelo vestido
preto e ajeitou os cabelos loiros. Ela era mais alta que Lizzy e o salto
aumentava isso ainda mais. Ela era magra, mas tinha belas curvas. Era o tipo
que seria considerada a mulher perfeita pelos padrões sociais atuais.
— Primeiro, vamos ter certeza —
falou Blair, aproximando-se de Lizzy em passos lentos. Ela estendeu um braço
para tocar na garota, que se afastou abruptamente. — E, depois, podemos
levá-la.
Mas Agares não estava prestando
atenção em Lizzy. Ele olhava em direção à porta e não tinha uma expressão boa
no rosto. Ele direcionou o olhar para Blair, parecendo preocupado.
— Sinto a presença de anjo na
casa — disse ele.
— Anjos... — começou Lizzy. — Por
que não estou surpresa?
— Esses malditos caçadores! —
esbravejou Blair. — Vou adorar acabar com eles.
Meus Deus, pensou Lizzy, até
caçadores existem nesse meio. Onde eu fui parar?
— Deixe-os comigo — Agares falou
para Blair. — Fique com a garota e descubra se é ela.
Agares saiu do quarto. A porta se
fechou no mesmo instante e apenas restou Lizzy e Blair, que se voltou para a garota
de cabelos pretos. Ela analisou Lizzy da cabeça aos pés e não parecia muito
satisfeita. Lizzy se sentiu exposta e pensou em sair correndo daquele quarto.
Seja quem fosses os caçadores ou a presença de anjo, tinha que ser melhor que
Blair e Agares, que pareciam ter algum tipo de poder.
Antes que qualquer uma das duas
pudesse falar algo, barulhos de estilhaços e coisas jogadas e quebradas
inundaram o quarto. Lizzy olhou para a janela fechada e pensou se tinha tempo o
suficiente para abri-la e fugir. A queda poderia acabar com uma parte dela, mas
ela estaria liberta de Blair, que tinha uma carranca no rosto. Ela soltou um
suspiro pesado e raivoso.
— Esse demônio não faz nada
direito! — ela gritou. — Fique aqui, garota, que eu vou resolver os problemas
desse demônio inútil!
Blair saiu do quarto, jogando a
porta contra parede. Lizzy continuou ouvindo o barulho de coisas quebrando.
Assim que se passou alguns segundos, ela resolveu sair do quarto e ver o que
estava acontecendo.
Ao passar pela porta, ela se
encontrou em um corredor pequeno. Não havia nada por lá. Continuou andando
sentindo o volume do barulho aumentar. Alcançou a escada e desceu pelos degraus
rapidamente, se deparando com um homem com uma espada nas mãos de costas
encarando Agares, que se encontrava no chão.
Sofás, mesas de centro, estantes
e objetos de decoração estavam jogados pela sala, a maioria estava quebrado ou
partido pela metade. Do outro lado da sala de estar, Lizzy viu Blair, com as
mãos estendidas e algo azul saindo das mãos dela. À frente dela, estava um
garoto de cabelos castanhos e uma garota de cabelo loiro pálido, quase branco,
encarando Blair com espadas nas mãos.
O homem que estava perto de
Agares se virou para trás e viu Lizzy. Ela percebeu que ele a reconhecia. De
alguma forma, ela o julgou como o homem que salvara sua vida. Ele era alto e
tinha o cabelo num tom loiro escuro. Tinha uma barba por fazer no rosto jovem,
que estava com algumas gotas de sangue. Vestia-se todo de preto, mas Lizzy
conseguiu ver que a roupa parecia que estava molhada.
— Era você que eu estava
procurando — disse ele. — Te achei.
Lizzy reconheceu a voz. Era
realmente seu salvador e ele tinha ido atrás dela. Para salvá-la de novo.
Com a distração do homem, Agares
avançou e o derrubou no chão. O homem perdeu sua espada e tinha o braço de
Agares pressionando em seu pescoço, sufocando-o.
— Jack! — gritou o garoto que
lutava com Blair.
— Vá ajuda-lo — disse a garota de
cabelo loiro pálido. — Eu consigo acabar com essa bruxinha — e foi para cima de
Blair.
Blair jogou um feixe de algo azul
que estava em suas mãos na direção da garota, que desviou pela lateral e jogou
a espada na direção de Blair que, apesar de conseguir desviar, a espada passou
de raspão pela barriga dela e Lizzy viu uma fumaça saindo dali.
O garoto que fora chamado de Jack
recebeu a ajuda de seu amigo, que pegou sua espada e fincou nas costas de
Agares, que soltou um grito alto. Com isso, Jack o empurrou e Agares caiu no
chão.
— Christian, me dê a espada —
ordenou Jack. Agares estava caído no chão e Jack apontou a espada para ele,
ameaçando-o. — Se você ainda não morreu, mande um recado para a sua bruxa: eu
vou caçá-la até o inferno.
Agares riu.
— Eu vou caçá-lo primeiro, Jack —
disse ele.
Neste instante, Blair se desviou
da garota com quem lutara, esticou a mão na direção do garoto de cabelos
castanhos e o jogou para longe, para outro cômodo.
— Vamos! — gritou Blair.
Ela se aproximou de Agares e uma
fumaça azul envolveu os dois. Em instantes, nem Blair e nem Agares se
encontravam na sala quando a fumaça se dissipou.
— Eu teria acabado com ela! —
gritou a garota loira.
Jack não olhou para a outra
garota. Ele correu para o outro cômodo, provavelmente atrás do garoto de
cabelos castanhos. Lizzy ficara parada o tempo todo, olhando ao redor do local.
Estivera paralisada com aquela luta, em que jovens tinham espadas e Agares e
Blair eram chamados de demônio e bruxa, respectivamente.
— Finalmente encontramos você —
disse a garota loira. Ela se aproximou de Lizzy, analisando-a. — O que você é?
— O quê? — perguntou Lizzy. —
Como assim?
A garota era um pouco mais alta
do que Lizzy. Os cabelos loiros platinados tinham um comprimento médio e
enrolavam um pouco nas pontas. De perto, Lizzy conseguiu ver os olhos verdes
tipo esmeralda e acima deles, uma das sobrancelhas da garota estava arqueada.
Ela vestia uma blusa vermelha que deixava um decote generoso enfeitado por
vários colares de prata que ela usava. Ou que outrora tinha sido um colar,
porque estavam aparentemente arrebentados.
— É uma feiticeira?
Lizzy olhou para a outra garota
com espanto.
— Você é maluca?
Nesse momento, Jack e outro
garoto voltaram ao cômodo. Eles se aproximaram e junto com a garota loira,
encararam Lizzy com curiosidade.
Lizzy conseguiu ver os olhos
azuis do garoto chamado Jack. Ela se sentiu surpresa ao estar admirando o rosto
dele, marcado pela mandíbula definida e um meio sorriso nos lábios dele. Ele
passou a mão pelo rosto, limpando algumas das gotas de sangue.
O garoto que estava ao lado de
Jack era um pouco mais alto do que ele. Tinha os olhos castanhos, assim como o
cabelo. O rosto era liso, apesar da sombra de uma barba. Parecia tão jovem e
tão bonito quanto Jack. Mas a diferença era que enquanto Jack tinha os cabelos
loiros grandes espalhados pela testa, o outro garoto o mantinha mais curto.
— Qual é o seu nome? — perguntou
Jack para Lizzy.
— Lizzy.
Jack ficou pensativo.
— Vamos sair daqui — lembrou a
garota loira. — Eles podem voltar.
— Karine tem razão, Jack — disse
o outro garoto. — Vamos passar tudo para o Harry e ele decide o que fazer.
Jack olhou para seus dois amigos.
— Isso eu já sei — falou. — Mas o
que faremos com a garota toda assustada?
Lizzy ficou brava. Odiava que
qualquer garoto a acusasse de estar assustada.
— E você acha que eu não tenho
razão? — ela gritou. — Eu fui perseguida e atacada por uma criatura estranha
ontem. Acordei na minha casa sem entender nada e depois fui sequestrada por um
homem de olhos amarelos! Isso não é nada normal para mim, idiota.
Jack fingiu claramente estar
ofendido com as palavras de Lizzy.
— Oh, me desculpe, anjinho de
porcelana — disse ele. — Tomarei mais cuidado com as palavras.
Karine revirou os olhos.
— Está na hora, vamos — ela
ordenou. — Vamos levá-la para a Torre. Harry deve saber o que fazer.
Lizzy deus alguns passos para
trás, com as mãos na frente simulando um escudo.
— Eu aceitei ir com um estranho
uma vez, não vou fazer isso de novo.
Jack soltou uma risada de
deboche.
— Sua mãe deveria ter te ensinado
a não falar com estranhos, anjinho.
Lizzy segurou sua vontade
socá-lo. Jack parecia extremamente seguro de si e beirava ao puro sarcasmo.
Enquanto Karine o olhava com desdém, o garoto ao lado dele passava as mãos
pelos cabelos e olhava para Lizzy como se pedisse desculpa. Ele deu de ombros e
deu um sorriso amarelo, claramente envergonhado.
— Desculpe pelos modos do meu
irmão, Lizzy — disse ele. — Meu nome é Christian. Aquele homem e aquela mulher
são perigosos e eles podem voltar a procurá-la. Juro pela minha vida que só vou
levá-la para um lugar em que fique segura.
— Ele não era exatamente um homem
— corrigiu Jack.
— Blair o chamou de demônio —
revelou Lizzy, baixinho. Aquilo soava estranho saindo de sua boca. Quem em sã
consciência acreditaria nisso?
— Isso mesmo — Jack concordou, se
espreguiçando. — Mas Harry deve saber explicar isso melhor para você sem que
você ache que a gente faça parte de algum culto a deuses que possuem olhos
amarelos. Mas vamos logo — e ele saiu na frente, indo em direção a porta
arrombada. — Só quero dormir.
Lizzy não queria se sentir uma
idiota por aceitar ir com estranhos de novo. Mas aquelas pessoas pareciam
próximos da idade dela e lutaram contra Blair e Agares. Contudo, ficar sozinha
sem entender o que estava acontecendo não parecia ser uma grande ideia também.
Seus sequestradores disseram que ela era a peça principal e uma parte dela
queria descobrir do que se tratava. Se aqueles adolescentes estranhos podiam
dar essa resposta a ela, então ela iria com eles.
Karine seguiu logo atrás de Jack
e Christian esperou, olhando para Lizzy.
— Não leve a sério as palavras de
Jack — disse ele. — Ele passou o dia inteiro tentando descobrir onde você
estava.
Sem saber o que dizer diante
daquilo, Lizzy seguiu os passos de Karine e sentiu Christian vindo atrás dela. Ao
passar pela porta, Lizzy se viu em um grande parque e, a poucos metros de
distância viu o rio pertencente à doca. Não tinha ideia de onde poderia estar,
mas sabia que não era o Brooklyn, pois conhecia aquele lugar como ninguém.
— Onde estamos? — ela perguntou,
enquanto seguia Karine para longe da doca.
— Esse é o Steppingstone Park
Dock — respondeu Christian, ficando ao seu lado dela e apontando para doca que
diminuía aos olhos de Lizzy. — No Kings Point. Você vai descobrir que gente
como Agares e Blair são mais encontrados por essas áreas, principalmente em
Long Island. Eles adoram ficar afastados da movimentação de Manhattan.
— E onde vocês estão me levando?
— Para Manhattan, bem longe dos
seus sequestradores — Christian respondeu. — Talvez você ache a Torre meio
antiquada, mas é um lugar seguro.
Lizzy riu.
— A casa de vocês tem um nome? —
questionou ela. — Não estou achando Agares e Blair menos estranhos que vocês
agora.
Christian soltou um sorrisinho.
— Mas
somos os mocinhos, Lizzy.
Lizzy seguiu com seus salvadores
estranhos para fora do Steppingstone Park e viu Jack entrando em um carro
preto. Ela não entendia quase nada sobre carros, mas jurou que aquele carro
estaria na linha dos melhores e mais caros. Jack alcançou a chave em seu bolso
e seguiu para dentro do carro, no lado do motorista. Karine entrou no lado do passageiro
da frente e sobrou para Lizzy e Christian os bancos de trás.
Assim que Jack deu a partida no
carro, Lizzy viu Karine alcançar o aparelho de som e ligá-lo. Every Breath You
Take começou a ecoar pelo carro, enquanto Jack seguia em alta velocidade para
fora da doca.
— Se você tentar matar a gente de
novo dirigindo desse jeito, eu vou torturar você até a morte — ameaçou Karine
enquanto colocava o cinto de segurança.
Lizzy ouviu Jack rir.
Durante todo o caminho, que deve
ter durado quase uma hora por conta do trânsito, Karine e Christian murmuravam
coisas entre si, como ‘’perdemos a aula da Angelina’’ e ‘’qualquer coisa
falamos que a culpa é toda do Jack’’ e Jack cantarolava todas músicas, que iam
desde clássicos dos anos 80 até os novos lançamentos da Rihanna. Lizzy ficou em
silêncio o tempo todo, muito desconfortável, mas sempre que olhava para o
retrovisor, reparava que Jack a olhava.
Quando eles passaram pela Throgs
Neck Bridge, Lizzy sentira a falta de seu celular. Ela resmungou e percebera
que Christian a olhara de lado. Naquela hora, o que ela mais quisera foi ligar
para Lucie e contar toda aquela história maluca que estava acontecendo e ouvir
sua melhor amiga gritar com ela e dizer que Lizzy havia ficado louca de vez. Só
assim para ela estar vivendo tudo aquilo.
Assim que Jack chegou na W 95th,
no Upper West Side, em Manhattan, ele diminuiu a velocidade. Ele passou pela
Columbus Ave e depois de passar pelo Hunan Park, ele parou o carro em frente a um
enorme prédio de forma circular, parecendo uma Torre, assim como Christian
havia lhe dito.
A Torre se destacava entre os
prédios ao redor dela. Era um prédio alto, que mantinha uma cor marrom clara
que estava claramente desbotada. A Torre era circulada por uma cerca preta que
não passava de um metro de altura. Quando Jack virou o carro na direção de um
portão pequeno, ele se abriu imediatamente e ele entrou com o carro. Lizzy não
julgou aquilo como uma garagem, pois a distância do portão para a porta de
entrada era muito pequena e os prédios de Manhattan tinha uma entrada bastante
diferente.
Lizzy desceu do carro e observou
mais ao redor. Ela estava pisando em terra e a extensão daquela entrada deserta
não era muito grande. Talvez coubesse mais dois carros ali. À frente de onde
Jack parara o carro, havia uma pequena escada que dava para uma porta grande
preta. Lizzy seguiu Jack, Karine e Christian e viu o garoto loiro remexer em
seu bolso, tirando uma chave maior que as de costume. Antes de girar a chave,
Jack olhou para Lizzy.
— Pronta para conhecer essa coisa
feia, anjinho?
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