sábado, 9 de maio de 2020

Capítulo 2 - Novo Mundo


Lizzy acordou sonolenta, sentindo seu corpo todo rígido. Ao abrir completamente os olhos, ela se deparou com a sala de estar de sua casa. Ela estava deitada no sofá e dormira de mal jeito.
Na verdade, parecia que seu corpo se negava a se mexer. Sentiria dores principalmente em suas pernas, como se ela tivesse corrido uma maratona durante dias.
Olhou para si mesma. E então se lembrou da festa. Ainda estava com o vestido preto que escolhera e a bota de cano baixo ainda estava nos pés. Quando olhou para baixo, viu a bolsa preta caída no chão.
Lizzy mal conseguia se aguentar. Sentia-se exausta, não apenas fisicamente, mas mentalmente e emocionalmente também. Ela já havia lido em algum lugar sobre quando as pessoas tinham alguma crise de ansiedade ou passavam por uma situação extremamente estressante e ficavam se sentindo esgotadas de todas as formas.
Então, ela se lembrou. Lembrou de quando saíra de casa e não havia encontrado Lucie. Lembrou-se de ver uma criatura horrível e sair correndo. Correra tanto que não sabia nem como havia conseguido. Por isso se sentia tão cansada e com o corpo tão dolorido. Os saltos das botas também não tinham ajudado. Deveria ter sido um milagre o salto não ter quebrado ou ela ter virado o pé.
Lembrou-se também de quando alguém matara a criatura e a salvara. Por último, lembrou-se da lâmina afiada que o homem estava carregando e depois tudo ficou escuro. Só que agora ela olhava para sua casa e não conseguia entender como havia chegado até ali.
— Meu deus, eu fiquei louca! — disse a si mesma. Lucie sempre dizia que um dia ela acabaria ficando maluca de vez. E estava certa, porque o dia finalmente havia chegado.
Lizzy se levantou do sofá e caminhou para a janela ao lado da porta de entrada. O amanhecer estava dando os seus indícios no horizonte. Ela especulou que não demora muito para que Miranda acordasse, já que ela sempre acordava cedo da manhã. Mesmo agora que ela estava desempregada depois de ter sido despedida por mal comportamentos como gerente de um restaurante em Manhattan.
Ela alcançou sua bolsa e correu de volta para seu quarto. Ela queria respostas, queria entender o ocorrido, mas seu corpo pedia arrego. Ao lançar a bolsa no chão, olhou para a cama e não resistiu. Depois teria suas respostas. Por agora, só queria repor suas energias.

***

Algumas horas depois, Lizzy acordou em sua cama. Agora, sentia-se mais descansada e mais disposta do que horas antes. Sentou-se na cama e se pôs a pensar.
Ela queria acreditar que adormecera sem ver no sofá por tanto esperar Lucie e teve um pesadelo horrível. Mas, ao mesmo tempo, tinha certeza de que tudo o que acontecera era real. Ela havia sido perseguida por uma criatura estranha e nojenta e sua vida somente foi poupada porque um homem misterioso salvou Lizzy. Queria contar isso para alguém, mas tinha certeza de que soaria como uma louca.
Lembrando-se de Lucie, correu para pegar sua bolsa no chão. Abriu-a e alcançou seu celular.
Lizzy quis gritar quando viu várias mensagens de Lucie que, primeiramente, parecia estar histérica com o atraso de Lizzy e, depois, parecia preocupada e pedia para que Lizzy ligasse para ela.
Lizzy até tinha pensado que poderia ter ido para a festa, bebido muito, ter tido alucinações e que por isso não se lembrava de como havia chegado em casa. Mas as mensagens de Lucie indicavam que elas sequer se encontraram.
Ela tinha certeza que surtaria enquanto não obtivesse respostas.
Lizzy jogou o celular em cima da cômoda e correu para se trocar. Tirou o vestido e pegou no guarda-roupa uma blusa preta de mangas curtas, calça jeans e botas pretas. Vestiu sua jaqueta jeans escura, pegou o celular e saiu do quarto.
Aparentemente, Miranda não estava em casa, já que a porta de seu quarto estava aberta e não se ouvia nenhum outro barulho pela casa a não ser os passos pesados e apressados de Lizzy. Sentiu-se aliviada quando se viu fora da casa, respirando o ar fresco daquela manhã de sábado.
O relógio no celular marcada pouco mais de dez horas da manhã. A primeira coisa que Lizzy quis fazer era ir à casa de Lucie.
Quando tocou a campainha, a mãe de Lucie a recebeu.
— Oi, Lizzy — disse a Sra. Brown, seu sorriso mais doce estampando seu rosto jovem.
Lucie tinha os mesmos traços que a mãe, apenas parecia ser uma cópia mais nova. Mas Georgina Brown era mais alta e tinha o corpo mais volumoso. Ela estava vestindo uma blusa com mangas que estavam dobradas até o cotovelo e um pano repousava em suas mãos.
— Oi, Sra. Brown — cumprimentou Lizzy. — A Lucie está?
— Está dormindo — respondeu a mãe de Lucie. — Ela ficou até tarde no celular, parecia que estava esperando alguma coisa.
— Achei que ela tinha saído ontem.
— Não, ela ficou aqui a noite toda — disse Georgina. — Eu conseguia ouvir do quarto ela reclamando de alguma coisa.
Então Lucie não comentara com os pais que iria a uma festa. Lizzy não pensou o contrário, pois os pais da amiga eram muita cuidados para deixarem que sua filha de dezesseis anos frequentasse uma festa em Manhattan que não tinha hora para acabar.
— Tudo bem — falou Lizzy. — Depois fala para ela que eu estive aqui.
Antes que Georgina pudesse falar qualquer outra palavra, Lizzy saiu correndo.
Lucie deveria estar muito brava com ela. Lizzy não a culpava, porque Lucie estivera ansiando um momento para ver Kyle. Apesar de odiá-lo, Lizzy não queria que a amiga ficasse brava com ela por causa dele.
Enquanto pensava sobre os acontecimentos da noite anterior, Lizzy saiu andando pelas ruas do Brooklyn. O clima estava ameno, o que indicava que o sol estava prestes a afundar em Nova York, trazendo o clima quente que ela tanto gostava. No fim das contas, decidiu que não tinha um rumo a seguir, porque não sabia como e com quem entenderia aquilo.
O homem que aparecera para ela na noite anterior poderia ajudá-la. Mas ela não sabia nem que aparência ele tinha. A única coisa que ela conseguia distinguir era a voz dele. Lizzy concluiu que era a voz de um menino que estava deixando a adolescência e se tornando um homem. Além disso, se ele estava no Brooklyn naquele momento, tinha grandes chances de que ele morasse por perto.
Lizzy estava passando pelo Kings Theatre quando percebeu que já estava bem distante de casa. A Avenida Flatbush estava movimentada naquela hora e ela sentiu seu estômago roncar quando passou pela porta do Burguer King.
Estivera tão atordoada com seus pensamentos que nem se lembrou de comer. E seria uma boa ideia parar para comer ali se ela não tivesse esquecido seu dinheiro em casa.
— O lanche é realmente ótimo — observou alguém.
Lizzy olhou para o lado e viu um homem em torno de uns quarenta ou cinquenta nos parado. Ele contemplava a placa do Burguer King quando fixou seus olhos em Lizzy. Os cabelos pretos estavam curtos, com mechas brancas perto da têmpora. Ela conseguiu ver algumas rugas perto dos olhos castanhos, indicando que ele já não era jovem. Usava uma jaqueta de couro preta que combinava com o resto de suas roupas pretas. As mãos estavam dentro dos bolsos da frente da calça e ele soltou um sorrisinho para ela.
— É, sim — Lizzy resolveu responder.
— Só não é melhor do que entender o que te atacou ontem, garota — disse o homem.
Lizzy ficou sem palavras.
— Como você...
O homem tornou a rir.
— Vamos, venha comigo — falou ele. — Eu vou te contar tudo.
— Você quer mesmo que eu vá com um estranho para onde quer que seja? — debochou Lizzy. — Muito estranho, não?
Enquanto Lizzy e o homem estranho conversavam, as pessoas passavam despercebidas por ele. Ela achou que ele poderia ser o homem que a salvara, mas a voz não passava nem perto de ser parecida. A voz do homem a sua frente era mais grossa e não o tom ríspido que ele usava não se parecia em nada com o ‘’você está bem?’’ que o seu salvador desconhecido lhe perguntara.
— Então você acha que qualquer estranho saberia do que aconteceu ontem? — perguntou o homem. Então, ele pareceu se lembrar de algo. — A propósito, meu nome é Agares. Talvez nos apresentando, eu deixe de ser um estranho.
Lizzy achou o nome bastante esquisito, porque nunca havia conhecido alguém com aquele nome. Mas sabia que alguns pais podiam ser bastante desagradáveis escolhendo o nome dos filhos.
— Meu nome é Lizzy — disse ela.
— Ótimo — Agares falou. — Agora você pode vir comigo, Lizzy. Tenho muito a lhe contar.
Lizzy resolveu se arriscar.
— Você sabe sobre o homem que estava lá? — questionou ela. — Você o conhece?
Agares bem que tentou, mas Lizzy percebeu que ele havia mudado a expressão agradável de seu rosto para um... descontentamento, ela diria.
— Sim — respondeu ele. — Ele também faz parte disso.
Lizzy ficou ansiosa para descobrir o que ele queria dizer com ‘’disso’’. Mas a única forma de descobrir do que se tratava era sair com um estranho. Aquele homem poderia fazer qualquer coisa com ela se Lizzy fosse com ela. Coisas boas ou coisas ruins.
Mas como não querer ir com a única pessoa, além dela, que tinha ideia do que acontecera na noite anterior?
— Tudo bem — ela concordou. — Eu vou com você.
Agares deu um grande sorriso satisfatório.

***

O pôr do sol invadia a janela quando Lizzy se deu conta de onde estava. Ela estava deitada em uma cama enorme, com travesseiros e lençóis brancos. O quarto era todo branco, sem nenhuma pista de que alguém habitara ali. Tinha um tamanho médio e, além da cama, havia uma penteadeira com um espelho e, do lado da janela, havia um pequeno armário.
Lizzy correu para a janela fechada. Ela julgou estar pelo menos em um terceiro andar de uma casa. Ao longe, ela via um rio extenso e percebeu que estava em uma doca. Ela não reconheceu o lugar, mas conseguiu observar que estava em um extenso parque, por conta do gramado, algumas árvores e até flores.
A última coisa que ela se lembrava era de Agares. Depois que ela concordara em ir com ele, tudo ficara escuro. Ela desconfiou que havia sido dopada ou sequestrada.
Correu até a porta perto da cama e tentou abri-la. Estava trancada.
Lizzy continuou forçando a fechadura, começou a gritar por ajuda e bateu várias vezes na porta.
Depois de alguns minutos, ela desistiu. Sentiu a garganta incomodar por conta dos gritos e sentou-se na cama, passando a mão pelo pescoço. De repente, veio a vontade de chorar e a raiva, por não saber absolutamente nada do que estava acontecendo. Ela só queria ir para a casa e fingir que nada daquilo estava acontecendo.
Lizzy passou as mãos pelos seus bolsos, sentindo ainda mais raiva ao perceber que estava sem seu celular. Se ao menos pudesse ligar para alguém...
Ela se virou para a porta assim que ouviu o barulho de que ela estava sendo destrancada. Assim que a porta se abriu, Lizzy viu Agares adentrando o quarto junto com uma mulher. Ela parecia não ter mais do que vinte anos. Tinha cabelos loiros cor de palha que desciam lisos até a cintura dela. Os olhos cinzentos se fixaram em Lizzy assim que ela fechou a porta atrás de si e parou ao lado de Agares. Seus lábios com um batom roxo se abriram formando um sorriso.
Ela estava usando um vestido preto que ia até os joelhos, com uma fenda lateral. Não tinha nenhum decote, mas também não tinha mangas. Lizzy pensou que ela pareceria uma executiva de uma empresa de negócios.
— Finalmente — disse Agares, sorrindo como a mulher. — Seu feitiço durou muito tempo, Blair.
Blair tirou o sorriso do rosto e olhou para Agares.
— Não critique meus feitiços, demônio — censurou ela. — Eu posso fazer coisas que você não pode mais.
A palavra demônio ressoou na cabeça de Lizzy várias vezes. E foi nesse momento que os olhos escuros de Agares se acenderam em um tom amarelo.
— O que... Como você... — Lizzy tentou falar.
Agares encarou Lizzy.
— Você realmente não tem ideia do poder que tem, garota — disse ele.
— Ela parece uma bobinha, demônio — disse a mulher chamada Blair. — Tem certeza de que é ela? Você já é fraco e velho.
Agares levantou o braço na direção de Blair. Lizzy não sabia dar nome aquilo, mas no mesmo instante, Blair havia se chocado contra a parede branca e caído no chão. Agares olhara com satisfação para Blair, que o encarava com ódio.
Na mesma hora, Blair revidou o movimento de Agares e ele se chocou com a parede oposta à de Blair. Lizzy encarou a situação sentindo seu corpo todo tremer e seu estômago revirar de ansiedade pelo o que viria em seguida.
— Se vocês quiserem — sugeriu Lizzy — eu dou licença e vocês podem continuar isso sozinhos, sem que eu atrapalhe — ela fingiu uma risadinha no final.
Blair e Agares se levantaram, encararam Lizzy e riram.
— Você é a peça principal, garota — revelou Agares.
— Meu nome não é garota! — disse Lizzy.
Blair passou a mão pelo vestido preto e ajeitou os cabelos loiros. Ela era mais alta que Lizzy e o salto aumentava isso ainda mais. Ela era magra, mas tinha belas curvas. Era o tipo que seria considerada a mulher perfeita pelos padrões sociais atuais.
— Primeiro, vamos ter certeza — falou Blair, aproximando-se de Lizzy em passos lentos. Ela estendeu um braço para tocar na garota, que se afastou abruptamente. — E, depois, podemos levá-la.
Mas Agares não estava prestando atenção em Lizzy. Ele olhava em direção à porta e não tinha uma expressão boa no rosto. Ele direcionou o olhar para Blair, parecendo preocupado.
— Sinto a presença de anjo na casa — disse ele.
— Anjos... — começou Lizzy. — Por que não estou surpresa?
— Esses malditos caçadores! — esbravejou Blair. — Vou adorar acabar com eles.
Meus Deus, pensou Lizzy, até caçadores existem nesse meio. Onde eu fui parar?
— Deixe-os comigo — Agares falou para Blair. — Fique com a garota e descubra se é ela.
Agares saiu do quarto. A porta se fechou no mesmo instante e apenas restou Lizzy e Blair, que se voltou para a garota de cabelos pretos. Ela analisou Lizzy da cabeça aos pés e não parecia muito satisfeita. Lizzy se sentiu exposta e pensou em sair correndo daquele quarto. Seja quem fosses os caçadores ou a presença de anjo, tinha que ser melhor que Blair e Agares, que pareciam ter algum tipo de poder.
Antes que qualquer uma das duas pudesse falar algo, barulhos de estilhaços e coisas jogadas e quebradas inundaram o quarto. Lizzy olhou para a janela fechada e pensou se tinha tempo o suficiente para abri-la e fugir. A queda poderia acabar com uma parte dela, mas ela estaria liberta de Blair, que tinha uma carranca no rosto. Ela soltou um suspiro pesado e raivoso.
— Esse demônio não faz nada direito! — ela gritou. — Fique aqui, garota, que eu vou resolver os problemas desse demônio inútil!
Blair saiu do quarto, jogando a porta contra parede. Lizzy continuou ouvindo o barulho de coisas quebrando. Assim que se passou alguns segundos, ela resolveu sair do quarto e ver o que estava acontecendo.
Ao passar pela porta, ela se encontrou em um corredor pequeno. Não havia nada por lá. Continuou andando sentindo o volume do barulho aumentar. Alcançou a escada e desceu pelos degraus rapidamente, se deparando com um homem com uma espada nas mãos de costas encarando Agares, que se encontrava no chão.
Sofás, mesas de centro, estantes e objetos de decoração estavam jogados pela sala, a maioria estava quebrado ou partido pela metade. Do outro lado da sala de estar, Lizzy viu Blair, com as mãos estendidas e algo azul saindo das mãos dela. À frente dela, estava um garoto de cabelos castanhos e uma garota de cabelo loiro pálido, quase branco, encarando Blair com espadas nas mãos.
O homem que estava perto de Agares se virou para trás e viu Lizzy. Ela percebeu que ele a reconhecia. De alguma forma, ela o julgou como o homem que salvara sua vida. Ele era alto e tinha o cabelo num tom loiro escuro. Tinha uma barba por fazer no rosto jovem, que estava com algumas gotas de sangue. Vestia-se todo de preto, mas Lizzy conseguiu ver que a roupa parecia que estava molhada.
— Era você que eu estava procurando — disse ele. — Te achei.
Lizzy reconheceu a voz. Era realmente seu salvador e ele tinha ido atrás dela. Para salvá-la de novo.
Com a distração do homem, Agares avançou e o derrubou no chão. O homem perdeu sua espada e tinha o braço de Agares pressionando em seu pescoço, sufocando-o.
— Jack! — gritou o garoto que lutava com Blair.
— Vá ajuda-lo — disse a garota de cabelo loiro pálido. — Eu consigo acabar com essa bruxinha — e foi para cima de Blair.
Blair jogou um feixe de algo azul que estava em suas mãos na direção da garota, que desviou pela lateral e jogou a espada na direção de Blair que, apesar de conseguir desviar, a espada passou de raspão pela barriga dela e Lizzy viu uma fumaça saindo dali.
O garoto que fora chamado de Jack recebeu a ajuda de seu amigo, que pegou sua espada e fincou nas costas de Agares, que soltou um grito alto. Com isso, Jack o empurrou e Agares caiu no chão.
— Christian, me dê a espada — ordenou Jack. Agares estava caído no chão e Jack apontou a espada para ele, ameaçando-o. — Se você ainda não morreu, mande um recado para a sua bruxa: eu vou caçá-la até o inferno.
Agares riu.
— Eu vou caçá-lo primeiro, Jack — disse ele.
Neste instante, Blair se desviou da garota com quem lutara, esticou a mão na direção do garoto de cabelos castanhos e o jogou para longe, para outro cômodo.
— Vamos! — gritou Blair.
Ela se aproximou de Agares e uma fumaça azul envolveu os dois. Em instantes, nem Blair e nem Agares se encontravam na sala quando a fumaça se dissipou.
— Eu teria acabado com ela! — gritou a garota loira.
Jack não olhou para a outra garota. Ele correu para o outro cômodo, provavelmente atrás do garoto de cabelos castanhos. Lizzy ficara parada o tempo todo, olhando ao redor do local. Estivera paralisada com aquela luta, em que jovens tinham espadas e Agares e Blair eram chamados de demônio e bruxa, respectivamente.
— Finalmente encontramos você — disse a garota loira. Ela se aproximou de Lizzy, analisando-a. — O que você é?
— O quê? — perguntou Lizzy. — Como assim?
A garota era um pouco mais alta do que Lizzy. Os cabelos loiros platinados tinham um comprimento médio e enrolavam um pouco nas pontas. De perto, Lizzy conseguiu ver os olhos verdes tipo esmeralda e acima deles, uma das sobrancelhas da garota estava arqueada. Ela vestia uma blusa vermelha que deixava um decote generoso enfeitado por vários colares de prata que ela usava. Ou que outrora tinha sido um colar, porque estavam aparentemente arrebentados.
— É uma feiticeira?
Lizzy olhou para a outra garota com espanto.
— Você é maluca?
Nesse momento, Jack e outro garoto voltaram ao cômodo. Eles se aproximaram e junto com a garota loira, encararam Lizzy com curiosidade.
Lizzy conseguiu ver os olhos azuis do garoto chamado Jack. Ela se sentiu surpresa ao estar admirando o rosto dele, marcado pela mandíbula definida e um meio sorriso nos lábios dele. Ele passou a mão pelo rosto, limpando algumas das gotas de sangue.
O garoto que estava ao lado de Jack era um pouco mais alto do que ele. Tinha os olhos castanhos, assim como o cabelo. O rosto era liso, apesar da sombra de uma barba. Parecia tão jovem e tão bonito quanto Jack. Mas a diferença era que enquanto Jack tinha os cabelos loiros grandes espalhados pela testa, o outro garoto o mantinha mais curto.
— Qual é o seu nome? — perguntou Jack para Lizzy.
— Lizzy.
Jack ficou pensativo.
— Vamos sair daqui — lembrou a garota loira. — Eles podem voltar.
— Karine tem razão, Jack — disse o outro garoto. — Vamos passar tudo para o Harry e ele decide o que fazer.
Jack olhou para seus dois amigos.
— Isso eu já sei — falou. — Mas o que faremos com a garota toda assustada?
Lizzy ficou brava. Odiava que qualquer garoto a acusasse de estar assustada.
— E você acha que eu não tenho razão? — ela gritou. — Eu fui perseguida e atacada por uma criatura estranha ontem. Acordei na minha casa sem entender nada e depois fui sequestrada por um homem de olhos amarelos! Isso não é nada normal para mim, idiota.
Jack fingiu claramente estar ofendido com as palavras de Lizzy.
— Oh, me desculpe, anjinho de porcelana — disse ele. — Tomarei mais cuidado com as palavras.
Karine revirou os olhos.
— Está na hora, vamos — ela ordenou. — Vamos levá-la para a Torre. Harry deve saber o que fazer.
Lizzy deus alguns passos para trás, com as mãos na frente simulando um escudo.
— Eu aceitei ir com um estranho uma vez, não vou fazer isso de novo.
Jack soltou uma risada de deboche.
— Sua mãe deveria ter te ensinado a não falar com estranhos, anjinho.
Lizzy segurou sua vontade socá-lo. Jack parecia extremamente seguro de si e beirava ao puro sarcasmo. Enquanto Karine o olhava com desdém, o garoto ao lado dele passava as mãos pelos cabelos e olhava para Lizzy como se pedisse desculpa. Ele deu de ombros e deu um sorriso amarelo, claramente envergonhado.
— Desculpe pelos modos do meu irmão, Lizzy — disse ele. — Meu nome é Christian. Aquele homem e aquela mulher são perigosos e eles podem voltar a procurá-la. Juro pela minha vida que só vou levá-la para um lugar em que fique segura.
— Ele não era exatamente um homem — corrigiu Jack.
— Blair o chamou de demônio — revelou Lizzy, baixinho. Aquilo soava estranho saindo de sua boca. Quem em sã consciência acreditaria nisso?
— Isso mesmo — Jack concordou, se espreguiçando. — Mas Harry deve saber explicar isso melhor para você sem que você ache que a gente faça parte de algum culto a deuses que possuem olhos amarelos. Mas vamos logo — e ele saiu na frente, indo em direção a porta arrombada. — Só quero dormir.
Lizzy não queria se sentir uma idiota por aceitar ir com estranhos de novo. Mas aquelas pessoas pareciam próximos da idade dela e lutaram contra Blair e Agares. Contudo, ficar sozinha sem entender o que estava acontecendo não parecia ser uma grande ideia também. Seus sequestradores disseram que ela era a peça principal e uma parte dela queria descobrir do que se tratava. Se aqueles adolescentes estranhos podiam dar essa resposta a ela, então ela iria com eles.
Karine seguiu logo atrás de Jack e Christian esperou, olhando para Lizzy.
— Não leve a sério as palavras de Jack — disse ele. — Ele passou o dia inteiro tentando descobrir onde você estava.
Sem saber o que dizer diante daquilo, Lizzy seguiu os passos de Karine e sentiu Christian vindo atrás dela. Ao passar pela porta, Lizzy se viu em um grande parque e, a poucos metros de distância viu o rio pertencente à doca. Não tinha ideia de onde poderia estar, mas sabia que não era o Brooklyn, pois conhecia aquele lugar como ninguém.
— Onde estamos? — ela perguntou, enquanto seguia Karine para longe da doca.
— Esse é o Steppingstone Park Dock — respondeu Christian, ficando ao seu lado dela e apontando para doca que diminuía aos olhos de Lizzy. — No Kings Point. Você vai descobrir que gente como Agares e Blair são mais encontrados por essas áreas, principalmente em Long Island. Eles adoram ficar afastados da movimentação de Manhattan.
— E onde vocês estão me levando?
— Para Manhattan, bem longe dos seus sequestradores — Christian respondeu. — Talvez você ache a Torre meio antiquada, mas é um lugar seguro.
Lizzy riu.
— A casa de vocês tem um nome? — questionou ela. — Não estou achando Agares e Blair menos estranhos que vocês agora.
Christian soltou um sorrisinho.
Mas somos os mocinhos, Lizzy.
Lizzy seguiu com seus salvadores estranhos para fora do Steppingstone Park e viu Jack entrando em um carro preto. Ela não entendia quase nada sobre carros, mas jurou que aquele carro estaria na linha dos melhores e mais caros. Jack alcançou a chave em seu bolso e seguiu para dentro do carro, no lado do motorista. Karine entrou no lado do passageiro da frente e sobrou para Lizzy e Christian os bancos de trás.
Assim que Jack deu a partida no carro, Lizzy viu Karine alcançar o aparelho de som e ligá-lo. Every Breath You Take começou a ecoar pelo carro, enquanto Jack seguia em alta velocidade para fora da doca.
— Se você tentar matar a gente de novo dirigindo desse jeito, eu vou torturar você até a morte — ameaçou Karine enquanto colocava o cinto de segurança.
Lizzy ouviu Jack rir.
Durante todo o caminho, que deve ter durado quase uma hora por conta do trânsito, Karine e Christian murmuravam coisas entre si, como ‘’perdemos a aula da Angelina’’ e ‘’qualquer coisa falamos que a culpa é toda do Jack’’ e Jack cantarolava todas músicas, que iam desde clássicos dos anos 80 até os novos lançamentos da Rihanna. Lizzy ficou em silêncio o tempo todo, muito desconfortável, mas sempre que olhava para o retrovisor, reparava que Jack a olhava.
Quando eles passaram pela Throgs Neck Bridge, Lizzy sentira a falta de seu celular. Ela resmungou e percebera que Christian a olhara de lado. Naquela hora, o que ela mais quisera foi ligar para Lucie e contar toda aquela história maluca que estava acontecendo e ouvir sua melhor amiga gritar com ela e dizer que Lizzy havia ficado louca de vez. Só assim para ela estar vivendo tudo aquilo.
Assim que Jack chegou na W 95th, no Upper West Side, em Manhattan, ele diminuiu a velocidade. Ele passou pela Columbus Ave e depois de passar pelo Hunan Park, ele parou o carro em frente a um enorme prédio de forma circular, parecendo uma Torre, assim como Christian havia lhe dito.
A Torre se destacava entre os prédios ao redor dela. Era um prédio alto, que mantinha uma cor marrom clara que estava claramente desbotada. A Torre era circulada por uma cerca preta que não passava de um metro de altura. Quando Jack virou o carro na direção de um portão pequeno, ele se abriu imediatamente e ele entrou com o carro. Lizzy não julgou aquilo como uma garagem, pois a distância do portão para a porta de entrada era muito pequena e os prédios de Manhattan tinha uma entrada bastante diferente.
Lizzy desceu do carro e observou mais ao redor. Ela estava pisando em terra e a extensão daquela entrada deserta não era muito grande. Talvez coubesse mais dois carros ali. À frente de onde Jack parara o carro, havia uma pequena escada que dava para uma porta grande preta. Lizzy seguiu Jack, Karine e Christian e viu o garoto loiro remexer em seu bolso, tirando uma chave maior que as de costume. Antes de girar a chave, Jack olhou para Lizzy.
— Pronta para conhecer essa coisa feia, anjinho?

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