sábado, 9 de maio de 2020

Capítulo 10 - Paraíso Mágico



Harry organizava os papéis em sua mesa quando ouviu batidas na porta. Ele fez careta ao pensar que poderia ser Karine, pois era ela que sempre deixava seu escritório organizado e ele, em poucas horas, deixava-o desorganizado novamente. Se fosse a menina, ele teria que aguentar alguns minutos do discurso muito conhecido de Karine, chamado ‘’como você consegue deixar esse lugar nessa imundice sempre?’’.
Quando Harry mandou que entrasse, Angelina Freen apareceu em sua frente. Ela fechou a porta atrás de si e andou na direção de Harry, vestida da cabeça aos pés com roupas brancas. O salto alto fez barulho conforme ela andava e só parou quando ela puxou uma cadeira e se sentou.
— Você não veio me chamar para um daqueles clubes de literatura que você frequenta, não é? — perguntou Harry, ainda de pé e arrumando sua mesa.
Angelina riu.
— Eu já desisti disso há muito tempo, querido — disse ela. — Você está mais calmo?
A tensão já havia ido embora de Harry desde que seus pequenos e inconsequentes Caçadores de Bruxas voltaram para a Torre. Mas a inquietação por Lizzy ainda o assombrava. Se ele demorasse mais alguns dias para descobrir o que estava acontecendo com a menina, teria que notificar o Conselho Supremo e a última coisa que ele queria era chamar a atenção para a sua Torre.
— Sim, estou — disse ele. — Obrigado pela preocupação.
— Bom, eu estive pensando aqui em como podemos ajudar a Lizzy — falou Angelina. — Creio que você quer resolver esse assunto o mais rápido possível para não ter que notificar o Conselho dos Caçadores.
A parceria de Harry e Angelina nunca falhava. Apesar dos acontecimentos do passado, Angelina era a única pessoa presente que Harry sabia que podia confiar em seus assuntos pessoais com o Conselho Supremo.
— Archer está se relacionando com uma feiticeira — revelou Angelina. — Ele tentou esconder, mas veio me pedir conselhos sobre surpresas românticas.
— Bom, hoje em dia o Conselho está mais flexível sobre isso — falou Harry.
— Mas esse não é o foco, Harry — Angelina continuou. — No exato momento da nossa conversa, ele recebeu uma ligação dela. E percebi que ele ficou triste quando sua parceira o dispensou essa noite.
Harry estreitou os olhos para Angelina. Ele deixou os papéis em cima da mesa e fixou sua atenção na mulher.
— Onde você está querendo chegar com isso, Angelina? — ele questionou. — Sem rodeios, por favor.
— A namorada de Archer o dispensou por conta de uma festa que vai acontecer na Ilha de Garden hoje — Angelina revelou. — Isso quer dizer que a barreira da ilha estará mais fraca para receber os convidados.
Harry enrijeceu ao ouvir o nome de Cassandra Garden, a Primeira Feiticeira. Ele finalmente entendeu o porquê Angelina demorou tanto para lhe dizer sua ideia.
Durante dezesseis anos, Harry se proibiu em pensar na feiticeira, por conta de acusações de se envolver com magia que ele recebeu por causa de sua aproximação com Cassandra. Só de pensar que isso poderia voltar e prejudicar ainda mais sua vida, ele estremeceu.
— Se mandarmos as crianças para a ilha, com poucas armas, em uma oferta de paz, eles podem convencê-la para que ela ajude Lizzy — propôs Angelina. — A perseguição contra Lizzy parece vir de uma Grande Bruxa. E já que Cassandra está com maior disponibilidade...
— Não, Angelina — Harry negou, nervoso. — Se descobrirem que eu me aproximei da Cassandra de novo, isso pode me causar problemas. Mais problemas do que antes. Não posso arriscar tudo o que eu consegui.
— Então você prefere que toda a atenção se volte a uma humana da Torre de Nova York que está sendo perseguida ferozmente por bruxas e demônios? — Angelina desafiou e se levantou. Ela era alta, mas não tanto quando Harry.
Harry suspirou pesadamente. Ele sabia que Angelina tinha razão. Mas ele não estava errado também.
— Eu não tenho para onde correr — Harry afirmou. — De qualquer maneira eu vou me prejudicar.
— Não se tudo for feito de uma maneira discreta — disse Angelina. — Pelo o que eu saiba, Cassandra não tem mais relações com o Conselho há muitas décadas. Duvido muito que eles fiquem sabendo sobre isso.
— Pode ter alguns de nós nessa festa, Angelina — Harry insistiu. — É perigoso.
Angelina cruzou os braços.
— Então você não vai ajudar a Lizzy? — ela questionou, brava. — Você vai deixar suas paranoias impedir que ela seja ajudada?
Harry sabia o motivo de Angelina querer tanto ajudar Lizzy. Significava uma dívida a ser paga do passado para ela.
— Você não vai junto com eles, o que diminui a possibilidade de ligarem isso a você — disse Angelina. — Coloque Karine como a líder. Ela tem mais diplomacia do que os outros.
— Karine? — questionou Harry. — Você só pode estar brincando, Angelina.
— Eu sei o motivo que você tem para até proibir que ela vá junto, mas pense. De todos, Karine é a que mais sabe como lidar com assuntos diplomáticos. Ela tem carisma e sabe usar as palavras adequadas. Deixe que ela leve os meninos apenas por segurança.
Harry se colocou a pensar. Ele sabia que Angelina tinha razão em tudo o que falara, mas o medo ainda o assombrava. Ele teve muito trabalho para que sua vida ficasse da maneira como estava agora, sem problemas e sem atenção do Conselho.
O plano de Angelina poderia dar certo, se Cassandra ainda continuasse a mesma mulher atenciosa que ele conhecera. Mas e se ela sentisse raiva dele e quisesse algum tipo de vingança por conta dos erros dele?
Ele ponderou as opções que tinha. E, em todas, ele corria algum risco.
— Tudo bem — ele disse. — Mas antes, Karine vai precisar de algumas dicas.

***

Lizzy estava sentada em frente à penteadeira branca e grande de Karine. No meio, tinha um espelho de tamanho grande e de cada lado, havia várias gavetas, onde a menina guardava maquiagens, itens para cabelos, acessórios e até joias, como a que Karine mostrava agora para Lizzy.
— Desculpe, Lizzy, mas isso é muito precioso para eu pensar na possibilidade de emprestar a alguém — disse Karine, segurando a caixa de joias aberta. Lizzy viu várias pulseiras e colares com pedrinhas brilhantes. Mas o que mais chamava a atenção era um par de brincos esmeraldas, da mesma cor dos olhos dela. — A maioria dessas joias eram da minha mãe.
Lizzy olhava para o espelho, onde sua imagem e a de Karine estavam sendo refletidos. Ela se virou para trás, encarando a verdadeira imagem da outra menina.
Karine guardou a caixa de joias em uma das gavetas, desviando do olhar de Lizzy. Parecia um assunto muito delicado para Karine.
— Eu não a conheci — disse ela. — Ela só tinha alguns parentes distantes, por isso me mandaram para cá.
— E o seu pai? — Lizzy perguntou cuidadosamente.
— Eu não sei quem ele é — respondeu. — Harry me disse que ia me ajudar a encontrá-lo, mas ainda não tivemos sucesso.
Karine segurou Lizzy pelos braços, virando-a para o espelho novamente.
— Agora falando de um assunto mais legal — disse ela — que tal darmos um jeito nesse cabelo?
— Meu cabelo não está tão ruim — protestou Lizzy.
— Mas também não está tão bom — disse Karine, passando os dedos pelo cabelo de Lizzy. — Temos que melhorar isso.
No mesmo instante, as duas meninas ouviram batidas na porta e, depois, a voz de Harry, perguntando se poderia entrar. Karine deu permissão e Harry adentrou pelo quarto, com a típica roupa amassada e o cabelo desgrenhado. Lizzy e Karine se viraram para encarar Harry.
Harry olhou de Karine para Lizzy, como se estivesse considerando alguma coisa. Logo, Karine tirou as mãos do cabelo de Lizzy e as colocou na cintura, encarando Harry impacientemente.
— O que você quer, Harry? — ela perguntou. — Estou cuidando bem da Lizzy agora.
— Bom, como não tivemos muito sucesso em ajudar a Lizzy, você vai liderar a próxima missão para encontrar a melhor pessoa para ajudá-la — Harry falou para Karine.
— Obrigada, Harry! — disse Karine, batendo palmas. — Quem eu vou encontrar?
— Cassandra Garden — ele respondeu.
Lizzy achou que teria que se prontificar para ajudar Karine, já que ela parecia que ia cair. Karine soltou um gritinho e deu pulinhos de alegria.
— Ai meu Deus! — disse Karine, cheia de entusiasmo. — Não acredito que vou encontrar a Primeira Feiticeira!
Karine correu e abraçou Harry, que sorriu, provavelmente, por ver a loira tão animada. Lizzy observou a cena como uma telespectadora intrusa, apesar de ela ser o motivo do acontecimento tão feliz de Karine.
Karine e Harry se distanciaram e ele olhou atenciosamente para ela.
— Primeiro, você vai levar Jack, Christian e Scott, além da Lizzy, é claro — ele ordenou. — Segundo, vocês vão levar o mínimo de armas possível, para que Cassandra não ache que estamos atacando. E, terceiro, você que vai apresentar Lizzy à Cassandra.
— Aposto que os meninos vão ficar morrendo de inveja! — Karine comemorou.
Harry riu.
— Aposto que sim.
— Mas como vamos encontrar Cassandra? — Karine perguntou. — Você teve contato com ela? Falou que nós precisamos da ajuda dela?
A postura de Harry ficou séria. Pela primeira vez desde que Harry entrara no quarto, Lizzy percebeu que ele parecia um pouco abalado e imaginou se a missão que estava propondo a Karine fosse o motivo do incômodo. Pela animação de Karine, Lizzy duvidou que ela percebesse algo.
— Archer conhece uma feiticeira que vai levar você e outros para a Ilha de Garden, que é onde Cassandra mora atualmente — Harry explicou. — Parece que hoje está havendo uma festa e as barreiras da ilha estarão enfraquecidas, o que vai permitir a entrada de não-feiticeiros.
— A Ilha de Garden é muito restrita — disse Karine. — Deve ser um evento importante.
Harry ignorou o comentário de Karine. Ele, agora, olhava para Lizzy.
— Lizzy, leve alguma arma também, não deve mais ficar totalmente desarmada — ele ordenou. — Karine pode te explicar alguns movimentos mais simples. Vou convocar os garotos. Encontrem-se em uma hora na entrada da Torre.
Quando Harry saiu, ele bateu a porta fortemente, assustando Karine e Lizzy, que se entreolharam. Depois, elas riram com a situação e Karine correu na direção da outra menina.
— É agora que eu vou realizar o meu sonho, Lizzy! — disse ela, voltando a passar os dedos nos cabelos de Lizzy e virando-a novamente para o espelho. As duas meninas eram completamente o oposto, Lizzy com seu cabelo extremamente negro e Karine com seu cabelo extremamente pálido, quase branco. — Vamos ficar lindas para conhecer a mulher mais poderosa do mundo!
— Feiticeiras são as que fazem magia do bem, certo? — Lizzy quis saber.
— Sim — respondeu Karine. — E Cassandra Garden é a Primeira Feiticeira. Todo mundo do meio demoníaco e dos Caçadores de Bruxas conhecem. As histórias dizem que Cassandra ajudou Luna Jones na batalha contra a Primeira Bruxa. — Ela parou, como se houvesse se lembrado de algo. — Te contaram sobre Luna Jones?
— Muito pouco — Lizzy confessou.
— Pois bem, enquanto nos arrumamos, eu te conto as coisas mais importantes.
Lizzy se segurou para não rir do entusiasmo de Karine, porque ela não sabia se o entusiasmo era com ela ou com a visita à mulher feiticeira. No fim, Lizzy decidiu que eram os dois, porque Karine estava tratando-a como sua bonequinha favorita.
Antes de mandar Lizzy tomar um banho, Karine contou que a Primeira Caçadora, Luna Jones, havia derrotado a Primeira Bruxa, Charlotte, que apareceu há mais de quinhentos anos. Havia muitos boatos na época de que ela era uma mulher linda, mas que foi traída. Tinha os cabelos ruivos, brilhantes como fogo. E um dia, ela perdeu tudo. Os cabelos foram cortados, o rosto deformado e uma mão amputada.
Nessa última parte, Lizzy estremeceu e fez careta, pois não se conteve e ficou imaginando o ocorrido. Karine só continuou a história depois que Lizzy saiu do banho, enrolada em uma toalha e com os cabelos molhados. Karine havia separado um vestido preto curto e de alças finas para Lizzy vestir e uma bota de cano baixo e salto pequeno.
Então, ela continuou contando. A raiva de Charlotte tinha sido imensa. Tão imensa que um demônio apareceu para ela. Azazel, um dos Grandes Demônios do inferno. Charlotte fez um pacto com ele e se transformou em uma bruxa. Mesmo com a magia, ela não conseguiu voltar a ser a mulher que era e por isso, resolveu se vingar do mundo. No pacto com Azazel, ela vendeu sua alma e por isso, não sentia mais nada.
Karine parou de contar quando ela entrou para o banho. Enquanto isso, Lizzy se pôs a secar o cabelo, pensando em uma mulher ruiva sedenta por vingança e com magia saindo pelos dedos.
Assim que Karine saiu do banho enrolada em uma toalha com os cabelos loiros respingando água no chão, ela continuou a contar que Charlotte montou um exército de bruxas. A magia tomou conta do mundo. E tudo virou destruição, tristeza e desespero.
Com mais animação, ela começou a contar que foi nesse momento que surgiu os Caçadores de Bruxas. Um anjo apareceu para dez jovens, com idades entre quinze e dezoito anos. A primeira Caçadora de Bruxas que existiu foi Luna Jones. Todos eles tinham almas puras e um objetivo em comum: livrar o mundo dos novos demônios e, principalmente, das bruxas.
Por último, Karine contou que algumas bruxas se voltaram contra Charlotte, e se denominaram feiticeiras. As diferenças entre elas, era que as feiticeiras faziam magia para o bem e nunca abusavam de seu poder. E desde então, para manter uma ordem entre os Caçadores de Bruxas, foram criados o Conselho Supremo e as Torres.
— Bem, é uma história bem resumida do início — Karine se desculpou. — É a primeira coisa que aprendemos quando iniciamos nosso treinamento. Damos muito valor para nossas origens, principalmente aos Primeiros Caçadores. Eles são chamados de Originais.
Agora, Karine secava seu cabelo, enquanto Lizzy estava sentada na cama dela e a observava. O quarto dela era todo decorado e limpo, o típico quarto que qualquer garota gostaria.
— O mais interessante de tudo, na minha opinião, é que a maior parte dos praticantes de magia são mulheres — continuou ela. — Dizem que Charlotte tinha um ódio por homens.
— Um mundo feminino, então — Lizzy concluiu.
Karine deu um olhar de cúmplice para Lizzy.
— Seria muito fácil se fosse tudo assim, não é?
Lizzy riu, concordando.
— E o que é esse Conselho Supremo? — perguntou ela.
— É o nosso governo — respondeu Karine. — Se Cassandra não conseguir te ajudar, acho que vamos ter que te levar para eles. Eles têm contatos pelo mundo todo.
— Eles estão aqui, em Nova York?
Karine negou.
— A Sede do Conselho fica em Londres.
Lizzy refletiu. Lidar com poucos Caçadores de Bruxas já era uma coisa grande, mas se ela se envolvesse com o governo deles, estaria mais envolvida ainda. E depois de ter vivenciado a maldade de Hazel, Agares e Blair, ela queria somente distância.
Karine terminou de secar o cabelo e depois, alisou o cabelo loiro. Em seguida, ela pegou Lizzy e enrolou o cabelo dela, deixando-a com as ondas mais definidas. Karine pegou alguns acessórios para colocar em Lizzy, que incluiu um colar de prata e algumas pulseiras. Por último, ela fez um delineado nos olhos dela e entregou a ela um batom vermelho, que Lizzy passou em seus lábios.
— Você se divertiu? — Lizzy perguntou.
— Com o quê?
Lizzy deu um sorrisinho.
— Em me tornar sua bonequinha de luxo por alguns minutos.
Karine fez careta para Lizzy e resmungou um xingamento. Depois que Lizzy ficou pronta, Karine passou uma maquiagem leve nos olhos e marcou os lábios com o mesmo batom vermelho que dera para Lizzy anteriormente. Por último, ela pegou novamente a caixa de joias e tirou de dentro o par de brincos esmeraldas.
— Foi um presente do Harry no meu aniversário de quinze anos — Karine comentou.
— Harry parece gostar muito de você.
— Ele e Angelina me criaram, Lizzy — explicou Karine. — Eles foram praticamente obrigados a gostar de mim.
Karine caminhou para um espelho maior que tinha ao lado da penteadeira para se ver inteira. Ela usava um vestido vermelho escuro sem decote, mas curto e um pouco justo, que ressaltou as bonitas curvas da menina. As botas de cano alto que ia até suas cochas e sem salto complementavam a aparência dela. Os brincos de esmeraldas brilharam quando ela colocou o cabelo para trás da orelha. Ela era toda linda.
— Como você consegue lutar com demônios vestida assim? — Lizzy quis saber, indignada. Ela caminhou para ficar ao lado de Karine e sua imagem foi refletida no espelho também.
— Vestida para matar, Lizzy — Karine respondeu. — Eu nunca perco a classe. — Ela saiu da frente do espelho e foi para o guarda-roupa. — Tome isto — disse ela, entregando uma jaqueta jeans para Lizzy. — A noite pode ser fria na ilha.
Karine pegou uma jaqueta de couro preta para ela. Ao abrir outra porta, ela pegou dois coldres e suas duas pistolas douradas. Em seguida, ela prendeu uma bainha nas costas para que pudesse colocar e prender uma longa espada. Por último, ela vestiu a jaqueta de couro e chamou Lizzy para que elas saíssem.
As duas meninas seguiram para a entrada da Torre. Os três meninos já estavam lá. Jack estava vestido de preto da cabeça aos pés, usando sua jaqueta de couro de antes. Mesmo de longe, Lizzy conseguiu ver um brilho dourado vindo do pescoço dele e ansiou para saber o que era. Ela ainda conseguiu ver o cinto de armas, como uma única espada média, uma faca e a adaga dourada. Ele tentara jogar o cabelo para trás, mas ele já estava quase que completamente cobrindo a testa dele novamente.
Christian vestia uma camisa de botões brancas e jeans escuros. Ele tinha uma bainha presa as costas como a de Karine, onde estava preso algumas flechas. Nas mãos, ele segurava um arco. Preso às pernas dele, estavam bainhas com facas. O cabelo curto estava jogado para o lado. Ele e Jack estavam lindos.
Scott estava mais desleixado. Ele usava uma calça jeans e camiseta com um tom parecido com os seus cabelos ruivos e havia colocado uma jaqueta preta por cima. No cinto de armas dele, estavam presas bainhas com algumas armas orientais, que Lizzy não se recordou do nome. Uma katana estava presa a uma bainha na cintura de Scott como arma principal.
— Vocês demoraram tanto tempo por que estavam passando batom vermelho? — questionou Scott, uma careta estampada em seu rosto sardento. — Eu sabia que Harry havia errado quando te colocou como líder.
— Já eu acho que vocês estão lindas — disse Jack, dando uma piscadela para Lizzy, que fingiu não ver. — Adoro me submeter às mulheres. Principalmente quando estão usando batom vermelhos. Estou até sentindo meus joelhos cederem.
— Eu sei muito bem como você adora se submeter a uma mulher, Jack — disse Karine, revirando os olhos. E cochichou para Lizzy: — ele é um canalha.
Jack ignorou Karine.
— Eu estou à sua disposição, anjinho — ele continuou. — Até para te ajudar a limpar sua boca.
Lizzy não sabia o que falar. Jack já havia jogado seu charme para cima dela antes, mas nunca de uma forma tão escancarada e, principalmente, na frente dos outros.
E ela não podia dizer que não tinha gostado do que ele falara. Mas tinha dúvidas de quando ele falava sério ou se estava apenas fazendo uma de suas brincadeiras.
— Ah, parem com isso — Scott mandou. — Depois vocês procuram um quarto.
Jack riu baixinho, enquanto Christian olhava para Lizzy como se pedisse desculpas pelas palavras do irmão mais velho.
— Esperem! — pediu Karine. — Harry disse que Lizzy deveria ter pelo menos uma arma. Preciso ir na Sala de Armas.
— Ah, não — reclamou Jack. — Pegue, Lizzy — ele entregou sua adaga dourada para Lizzy. — Você já está se acostumando com essa adaga mesmo.
Lizzy segurou forte o cabo da adaga. Ela seguiu enquanto os jovens Caçadores de Bruxas saíam da Torre. Do lado de fora, Archer estava com uma mulher de pele escura e cabelos pretos na altura dos ombros. Ela vestia um brilhante vestido branco sem alças, com uma fenda lateral do lado direito. No pescoço dela, brilhava um colar de diamantes. Em uma das mãos, ela segurava uma bolsa prateada e pequena.
— Feiticeiras não entram na Torre — Jack cochichou no ouvido de Lizzy. — Seres que fazem magia não podem agraciados com essa amostra grátis da Idade Média.
— Não fale besteiras, Jack — disse Christian. — A barreira é contra magia negra.
Jack deu de ombros.
— Pra mim é a mesma coisa.
Archer apresentou Freya Fallon, uma feiticeira que os levaria para a Ilha de Garden. Inicialmente, ele apresentou a mulher como sua amiga. Porém, depois de uma olhadela de raiva de Freya, ele a apresentou como sua namorada. Lizzy ouviu Jack resmungar, mas não conseguiu entender o que ele havia dito.
— Você não vai com a gente? — perguntou Scott.
— Não — respondeu Archer. — Harry me pediu para resolver um outro assunto. Além do mais, já vai haver sangue de anjo demais naquela ilha.
— Eu só espero que Cassandra não me expulse — disse Freya.
— Então o sentimento por nós também é mútuo? — Jack perguntou.
Freya franziu o cenho, sem entender o que Jack falara. Archer pareceu desesperado e pronto para amenizar a situação.
— É que a ilha é exclusiva para feiticeiros, Jack — ele explicou, nervoso. — Ninguém aqui odeia ninguém.
Jack abriu a boca para falar, mas Christian interveio antes que saísse alguma palavra. Lizzy estava curiosa para entender porque Archer e Christian estavam tentando amenizar as falas de Jack.
— Acho que já está na hora de irmos — declarou Karine.
Archer deu um beijo de despedida em Freya e voltou para a Torre. Freya olhou para ele até o último segundo e, depois, deu uma observada na Torre, fazendo uma careta.
As pessoas que passavam por ali davam algumas olhadelas curiosas para o grupo. Lizzy sabia que a maior parte deles não eram capazes de ver as armas que eles carregavam, por conta do sangue de anjo, mas imaginou que eles pareciam um grupo interessante e bonito de se admirar. E imaginou também o que as pessoas que conseguiam ver estavam pensando.
— Como vocês nunca viram a ilha, vamos dar às mãos para que vocês se liguem a mim — disse Freya. Karine segurou uma das mãos da feiticeira e Scott segurou a outra. Lizzy ficou ao lado de Karine e Christian ao lado de Scott. Jack encarou a feiticeira antes de finalmente segurar no braço de Lizzy e pegar a mão livre de Christian, formando uma roda. — Magicas potestates dederunt mihi nunc porta voco. Magicas potestates dederunt mihi nunc loco dicam. Quod cum magicis vires, quae data est mihi, quaeso, nunc locum, ut animus accendit. ‘’Pelos poderes mágicos que me foram dados, eu invoco, agora, um portal. Pelos poderes mágicos que me foram dados, eu invoco, agora, uma passagem. Pelos poderes mágicos que me foram dados, eu invoco, agora, o lugar que incendeia minha mente.’’
Uma luz verde se formou acima da cabeça de Freya. Enquanto a feiticeira tornava a repetir as palavras que Lizzy não entendia, a luz ia aumentando seu tamanho. Ela olhou para Karine, que encarava Freya. Um vento forte soprou os cabelos de Lizzy para trás e, inconscientemente, ela fechou os olhos.
Assim que ela sentiu o vento passar, ela abriu os olhos. Ela ainda continuava com adaga em das mãos e Jack e Karine de cada lado. Christian e Scott também estavam lá. Mas Freya não.
Eles estavam em uma praia. As ondas batiam forte nas pedras sob o céu completamente estrelado e uma lua cheia brilhante, que sozinha, provocar uma noite de luar linda. A praia estava deserta e o único barulho que se ouviu, além das ondas, foi quando Jack gritou.
— EU SABIA! NUNCA CONFIE EM UMA FEITICEIRA!
Eles se soltaram um do outro e olharam ao redor. Jack passou as mãos pelos cabelos e suspirou pesadamente, visivelmente furioso. Christian colocou uma das mãos no ombro dele, para acalmá-lo. Já Scott olhava deslumbrado para o céu, enquanto Karine correu para a beira do mar e abriu os braços, sentindo a brisa.
— Isso é tão lindo! — ela gritou. — Vem, Lizzy!
Lizzy correu até ela. A noite realmente estava linda e ver o mar sob a lua tornava tudo ainda mais maravilhoso. Ela se lembrou de quando visitava frequentemente o Coney Island com Lucie, Nick e os amigos dele. Ela sempre se maravilhava com os fogos de artifícios da sexta-feira à noite, mas aquela visão era mil vezes melhor, quase mágica.
Seu coração apertou quando ela se lembrou de sua vida antes de conhecer a Torre e aquele novo mundo sombrio. Lizzy se arrependeu de achar que seus problemas amorosos eram o fim do mundo. Porque nada seria mais estranho do que, em poucos minutos, ela estar em um lugar tão diferente do que estivera antes.
Ela pensou se haveria um píer como o de Coney Island também, mas ao olhar para trás, viu que a praia se estendia até uma colina cheia de árvores pequenas.
Olhando para os lados, Lizzy viu que a praia e o mar pareciam não ter fim. Scott andava de um lado para o outro, maravilhado. Já Christian ainda estava no mesmo lugar, com Jack sentado no chão e resmungando sem parar.
— Agora você me diz, irmãozinho — disse Jack. — Onde estamos?
— Jack, pare com isso — Christian pediu. — Não é o fim do mundo. — Ele se virou para Karine, Lizzy e Scott. — Vamos sair daqui!
Karine ainda contemplou o mar durante alguns minutos antes de obedecer a Christian e puxar Lizzy para ir ao encontro dele também. Todos caminharam para subir a colina e se depararam com uma fila de árvores de porte médio com uma longa passagem pelo meio feita de grama.
Christian seguia na frente, claramente irritado com Jack, que dizia que só não mataria Freya em respeito à Archer. Quando Scott lembrou que se Jack matasse uma feiticeira ele poderia ser preso, Jack disse que não importava, porque ele estaria vingando todos eles.
— Jack não curte muito praticantes de magia — disse Karine para Lizzy. — Sejam bruxas ou feiticeiras.
— Por quê? — Lizzy quis saber.
— Na autópsia feita no pai dele, foi diagnosticado que ele morreu por conta de um feitiço — respondeu Karine. — Jack acha que o pai agonizou e sofreu muito antes de morrer finalmente.
Jack e Scott caminhavam um pouco à frente de Lizzy e Karine. Jack finalmente estava em silêncio, mas Lizzy viu que ele havia tirado a espada da bainha.
— Não era você que deveria estar indo na frente? — questionou Lizzy.
— Eu não — respondeu Karine. — Se algo aparecer, não quero ser a primeira a ser atacada. Ser líder também é ser esperta. — Ela riu. — Além do mais, você já se machucou demais perto de Jack e Christian. Vai ficar mais segura perto de mim.
— Eu realmente acho que depois disso tudo você vai me transformar em uma verdadeira bonequinha de luxo — disse Lizzy, rindo.
— O problema, Lizzy, é quando finalmente isso vai terminar.
Lizzy ficou em silêncio, desconfortável com a fala de Karine. Ela não havia considerado que aquela perseguição contra ela pudesse demorar tanto para ser resolvida e terminada.
O que pareceu quase meia hora depois, a trilha havia terminado e, agora, eles estavam em um bosque, sem nenhuma trilha. As árvores de porte médio deixavam com que a lua cheia e brilhante iluminasse o local, deixando-os longe da escuridão.
— Para onde vamos seguir agora? — perguntou Scott. — Sem nenhuma trilha...
— Escutem — disse Karine. — É o barulho de uma cachoeira. É para lá — ela apontou para a direita.
Karine seguiu na frente, pegando uma das pistolas no coldre. Lizzy e os meninos seguiram atrás dela enquanto o barulho da cachoeira aumentava. Agora, todos ali haviam pegado suas armas e Lizzy ainda mantinha o aperto firme na adaga que Jack lhe dera.
Eles atravessaram as árvores e o bosque se viram com uma longa ponte branca na frente deles. Karine parou e observou a ponte antes de seguir. Do lado direito da ponte, se estendia um rio, no qual a cachoeira, do alto, desabava. Do lado esquerdo, havia ainda algumas pequenas árvores.
Depois de atravessarem a ponte, apareceu um caminho de pedras e o local era composto por gramíneas e flores muito coloridas. Conforme foram andando, Lizzy viu ipês de várias cores espalhados pela ilha.
— O que está achando, Lizzy? — Jack perguntou para ela.
Ela e Jack haviam sido deixadas para trás e se encontravam um pouco distantes do grupo. Obviamente, Karine estava atenta demais a ilha e ao caminho que estavam tomando para prestar atenção em Lizzy.
Jack havia parado ao lado dela. Ele era bem mais alto do que ela, um pouco mais que uma cabeça. O cheiro que ele exalava era de perfume caro. Eles estavam tão pertos que as mãos deles se tocavam.
— É uma bela ilha — ela resolveu dizer.
— Pura magia — disse Jack. — Mas é muito fácil se deslumbrar. Essa ilha está repleta de geografias e vegetações de diferentes lugares do mundo.
— Não achei que você se interessasse por vegetações — Lizzy zombou.
— Eu costumava viajar muito com o meu pai — disse ele. — Você se impressionaria com os lugares em que eu já fui.
Lizzy não se impediu de rir.
— Ei, está zombando de mim? — Jack questionou, e Lizzy riu de novo ao perceber o tom divertido na voz dele. — Não zombe de mim, Lizzy. Eu poderia ser considerado o maior patrimônio histórico da cultura mundial.
— É claro que sim.
Ela olhava para frente, mas sentiu que Jack a encarava. Lizzy sentiu seu rosto quente de vergonha, por isso, decidiu não olhar para ele.
Mas quando ela viu um brilho dourado pelo canto de olho, não conseguiu se impedir de olhar Jack.
— O que é isso? — ela perguntou.
Jack colocou a mão por dentro do colarinho da camisa e colocou um medalhão para fora, mostrando para ela. Eles continuaram caminhando, porém, mais devagar. Com isso, Lizzy conseguiu vislumbrar o medalhão dourado e pequeno. Ao redor dele, havia um ornamento de ondas e, no centro, havia o perfeito desenho de uma asa de um anjo.
— Era do meu pai — Jack falou. — Ele sempre o usava, mas eu sempre esqueço da existência dele.
— E por que você decidiu usá-lo hoje, então?
— Meu pai adorava dizer que esse medalhão significava uma proteção angelical — ele falou. — Já eu acho que não passa de uma coisa velha e feia. Mas, como viemos parar nesse lugar infernal, uma crença paternal não me pareceu uma coisa boa a se ignorar.
Jack e Lizzy pararam quando se aproximaram de Christian e Scott, também parados. Na frente deles, mais distante, estava Karine. Ela encarava a fachada de um enorme edifício de mármore, que era cercado por muro branco baixo e um portão preto de grades grossas.
— Deve ser aqui — disse Karine.
Ela se virou para trás, encarando o grupo com o qual viera. Jack saiu de perto de Lizzy e ficou ao lado de Christian. Os três meninos e Karine fizeram uma espécie de roda, deixando Lizzy de fora. Enquanto ela observava o grupo cochichando, sem se atender aos outros detalhes, uma voz fina e notoriamente furiosa caiu como um barulho de um raio nos ouvidos de Lizzy e do grupo de Caçadores de Bruxas, que se separaram rapidamente.
Karine agora estava com as duas pistolas nas mãos. Jack se posicionou na frente de Lizzy, como uma espécie de proteção. Christian preparou o arco e pegou uma flecha. Scott tinha a katana em uma das mãos, mas não parecia tão preocupado quanto os outros.
— O que vocês estão fazendo aqui? — disse a menina. — Vocês não são permitidos aqui, filhos de anjo!
Na última frase, o tom de voz se elevou. Lizzy se inclinou para o lado e conseguiu vislumbrar quem era a dona da voz. Era uma menina ruiva, com a pele branca enfeitada por centenas de sardas. O cabelo ruivo tinha um tom alaranjado e estava solto e liso, enfeitado como uma tiara prateada. Ela usava um longo vestido azul escuro de alças finas, enfeitado com pedrinhas brilhantes azuis na parte do decote. Do lado direito, o vestido tinha uma fenda, que deixava a mostra a perna e o salto alto preto.
— E quem é você? — perguntou Karine, apontando as duas armas na direção da menina. — Estamos procurando Cassandra Garden.
A menina ruiva estendeu um braço na direção de Karine. De início, Lizzy não entendeu o que estava acontecendo. Mas depois viu que a loira abraçou os dois braços e que resmungava vários xingamentos.
— Você não pode chegar na casa dos outros apontando uma arma na direção deles — disse a menina.
— É instinto de proteção — Karine retrucou. — Até por que você não nos disse quem é.
— Vocês estão na minha casa — disse a menina. — São vocês que me devem explicações.
— Mas quem mora aqui é Cassandra Garden — Scott falou. — Eu já vi fotos dela. E, apesar de vocês se parecerem, você não é ela.
A menina ruiva cruzou os braços e inclinou a cabeça para o lado, mas não falou nada. Lizzy pensou que ela não falaria nada até que os Caçadores de Bruxas se explicassem.
Lizzy passou por Jack e pelos outros, ficando ao lado de Karine. Mais perto agora da garota ruiva, Lizzy conseguiu ver que os grandes e profundos olhos dela eram azuis esverdeados e se destacavam completamente no rosto dela. Era como se fosse algo hipnotizador e cintilante.
— Você é diferente — disse a garota ruiva, olhando para Lizzy. — Você não é como eles.
— Nós somos da Torre de Nova York — Karine se pronunciou. — Essa é a Lizzy. Ela não é como nós. Mas não temos como ajudá-la. Por isso viemos aqui, porque Cassandra Garden é nossa última opção.
— Você pode me ajudar? — Lizzy perguntou, sentindo o tom de sua voz fraquejando. Já estava exausta de toda aquela situação. — Karine disse que se isso não der certo, eles vão me levar para o Conselho deles. Não me parece algo legal.
Lizzy conseguiu ouvir Karine murmurar ‘’boa garota’’ e segurou um sorriso. Ela não esperava que aquilo desse certo, afinal.
— Meu nome é Stella Garden — a menina se apresentou. — Vou apresentar Cassandra a vocês.

Nenhum comentário:

Postar um comentário