Depois que Karine saíra do
quarto, não demorou muito para que Lizzy adormecesse, exausta pelos
acontecimentos do dia. Ela só acordara por conta de uma conversa baixa que
parecia vir do corredor.
A janela ainda estava aberta. Lá
fora, a noite caía sobre Nova York. Ao se levantar da cama, Lizzy correu para a
janela. Do segundo andar da Torre, ela conseguia ter uma vista linda de
Manhattan, o movimento, as pessoas, as luzes da cidade.
— Para de me seguir, Christian! —
gritou alguém.
Lizzy distinguiu a voz como a de
Jack. Não havia sido um grito na verdade, mas um sussurro bem alto. Ela
desconfiou que talvez ele não quisesse ser descoberto. Ou, mais precisamente,
que Harry o descobrisse.
Em vista disso, e atiçada por sua
curiosidade, ela correu até a porta e abriu-a. Lizzy se deparou com Jack,
vestido com uma jaqueta de couro preta, jeans escuros e botas. Havia um cinto
em torno do cós da calça dele e, preso a ele, uma espada em uma bainha. De
frente a ele, estava Christian, vestido semelhante à Jack e também com uma
espada presa a um cinto.
Enquanto Christian se expressava
para Lizzy como se pedisse desculpas, Jack estreitou os olhos para ela.
— Você não viu nada — avisou ele.
Ela apoiou-se na parede e cruzou
os braços, dando um sorriso de lado para Jack.
— Você está fazendo algo
escondido — observou ela. — E, não pode fazer nada contra pra mim. Ou o Harry
vai descobrir que você está fazendo algo que você não quer que ele saiba.
Jack encarou Lizzy com irritação
evidente. Havia sido um palpite na verdade, mas ela se surpreendeu ao descobrir
que aparentava estar completamente certa.
— É quase isso — confessou
Christian. — Mas vai além.
A irritação de Jack se direcionou
para o irmão. Quando Lizzy comparou os dois, lembrou-se de Karine falando que
eles tinham só o mesmo pai. Por isso eram tão diferentes na aparência.
— Vamos investigar a casa onde
você estava — revelou Jack. — Só que precisamos ir logo. Depois nós
conversamos.
— Eu quero ir — disse Lizzy.
Jack soltou uma risada
zombeteira.
— Você ficou maluca? — questionou
ele. — Eles vão atrás de você na mesma hora. Você só está segura aqui.
— Jack tem razão, Lizzy —
Christian falou. — Se aquele demônio volta...
— Se ele voltar, vocês vão
pegá-lo e vamos descobrir o que está acontecendo — disse Lizzy. — É o trabalho
de vocês, certo?
Jack suspirou.
— É melhor que você fique aqui,
anjinho — Jack continuou insistindo. — Contaremos tudo a você quando voltarmos.
— Primeiro, pare de me chamar de
anjinho — ordenou Lizzy. — Segundo, eu vou com vocês. Está decidido.
Jack olhou para Christian,
contrariado. Christian deu de ombros para o irmão, como se dissesse ‘’vamos
fazer o quê?’’.
— No primeiro sinal de perigo,
nós trazemos você de volta — garantiu Christian. — E não conte nada ao Harry,
por favor.
Lizzy sorriu, vitoriosa. Ela
seguiu os dois meninos pelo corredor iluminado depois de fechar a porta de seu
quarto provisório. Inconscientemente, passou a mão pelo bolso do jeans que
usava, procurando seu celular. Ela esperava que ao voltar naquela casa, pudesse
encontrar seu celular e ter pelo menos uma parte de seu mundo de volta
conversando com Lucie.
Os três chegaram ao cômodo vazio
da entrada. Jack e Christian arrumaram suas armas e espiaram os dois corredores
da entrada (que Lizzy teve curiosidade para saber o que tinha por lá),
provavelmente, para ver se havia alguém por ali. Ela pressentiu que não, pois
os dois seguiram para a porta de entrada. Diferente de quando Jack usou uma
chave de tamanho anormal para entrar na Torre, na saída, ele só precisou
abri-la.
— Você está com a sua chave? —
perguntou Jack para Christian. — Acho que esqueci a minha no meu quarto.
— Sempre estou — respondeu
Christian.
— Essa chave é estranha —
observou Lizzy.
— Só serve para impedir que
humanos fiquem bisbilhotando por aqui — disse Jack.
Lizzy acompanhou os dois enquanto
Jack entrava no carro preto que eles usaram para chegar a Torre horas antes.
Jack entrou do lado do motorista, enquanto Christian entrou do outro lado.
Lizzy foi para o banco de trás.
Assim que Jack tirou o carro da
Torre, a música invadiu o carro. Lizzy não a reconheceu, mas imaginou que fosse
alguma música dos anos 80. Jack parecia gostar muito.
O trajeto foi o mesmo até que
eles chegassem na doca que Agares levara Lizzy antes. Quando Jack parou o carro
em frente a casa, arrepios subiu pelo corpo dela. Ela teve um medo repentino de
que Agares e Blair ainda estivessem na casa e que, assim que a vissem, a
levassem de novo.
— Aqui estamos — disse Jack
quando Lizzy saiu do carro. — Sentiu saudades? — ele perguntou para a garota.
Lizzy fez careta para ele.
Christian foi na frente, adentrando a casa que estava sem porta. Ao entrar, ela
viu que a casa estava quase completamente escura, só uma luz que entrava pelas
janelas da sala de estar. Os móveis ainda estavam revirados e quebrados, da
maneira que antes.
— Parece que eles não voltaram — observou
Christian, pegando a sua espada. — Mas tome cuidado mesmo assim, Lizzy.
— Tome isto — Jack falou,
entregando uma adaga para Lizzy. — Qualquer coisa, é só apunhalar.
— Guarde isso como a sua vida,
Lizzy — Christian falou. — Pertencia ao nosso pai.
Lizzy estendeu o braço na direção
de Jack, indicando que queria devolver a adaga. Jack balançou a cabeça e se pôs
a ficar atrás dela.
— Não ligue para isso, Lizzy —
disse ele. Ele pegou o braço dela e fez vários movimentos para frente,
indicando como ela deveria usar a adaga. — Assim. Use força também.
Jack saiu de trás de Lizzy e
avançou pelo cômodo. Mesmo com a iluminação fraca vinda da janela, ela
conseguiu obter alguns detalhes sobre a adaga. Ela nunca havia pegado em uma
antes e sua primeira vez estava sendo com uma adaga de cabo dourado que se
estendia para os dois lados como um desenho de asas e, na ponta de cada uma
delas, havia uma pequena pedra vermelha.
Ao olhar mais de perto, Lizzy
conseguiu ver que na ponta do cabo estava gravado ‘’Greenspan’’.
Enquanto Christian seguiu na
direção de outro cômodo da casa, Lizzy avançou pelas escadas, com um aperto
firme na adaga. O corredor estava como ela se lembrava, mas, ao invés de ela
entrar no quarto que outrora estivera, entrou em outro.
A porta estava aberta e a janela
também. Ela não conseguiu ver detalhes por conta da fraca iluminação, mas
parecia ser semelhante ao quarto que ela estivera.
Lizzy não encontrou nada ali e
nem nos outros quartos. O maior problema ali estava sendo a falta de luz. Ela ainda
tinha que admitir que um medo estava se instalando sobre ela, mas a adaga que
Jack lhe dera passava algum conforto.
Assim que Lizzy voltou para a
sala de estar, no andar debaixo, encontrou Jack parado e ajoelhado no chão, a
espada de ponta baixo e brilhando contra a luz do luar.
— Não tem nada lá em cima — disse
Lizzy.
Jack se levantou.
— Foi o que eu pensei — ele
respondeu. — Aqui não é morada deles. Eles não usam essa casa. Não tem nenhum
indício de magia.
— O que vamos fazer, então? —
Lizzy perguntou, aproximando-se dele.
Jack não respondeu. Ele não
estava olhando para Lizzy, mas para os lados. Ela o viu franzir o cenho e
quando abriu a boca para perguntar o porquê, sentiu o aperto forte dele em seu
braço.
— Christian! — ele gritou.
Na mesma hora, um estilhaço foi
ouvido e Lizzy foi capaz de ver uma sombra passando como um vulto na sua
frente. O aperto se afrouxou e ele se separou dele, correndo na direção do
vulto. Não demorou muito para que ela distinguisse que era Christian e ele
havia sido atingido muito forte.
Do cômodo que Christian viera,
apareceu um homem. Imediatamente, Lizzy o reconheceu como Agares. Ele era
sombras e escuridão e seus olhos amarelos brilhavam.
Jack se desvencilhou de
Christian, que estava caído no chão. Lizzy conseguiu ver que ele estava se
sentando, e ficou aliviada por ele não ter sido ferido.
Jack apontou a espada na direção
de Agares. O luar que invadia a janela deixava somente algumas partes do garoto
bem visíveis. Lizzy via o contorno do corpo magro e musculoso dele, da boca que
estava entreaberta e do cabelo loiro bagunçado. E, principalmente, da fúria que
ele sentia.
— Olá, Jack — disse Agares. — É
bom revê-lo.
— Como você pode dizer isso,
demônio? — indagou Christian, levantando-se e se apoiando em Jack. Assim como o
irmão, ele pegou a espada e apontou na direção de Agares.
O demônio riu.
— Quer dizer que a garota ganhou
dois protetores — observou ele. Lizzy aproveitou para correr na direção dos
dois irmãos e ficou ao lado de Jack. — Jordan treinou vocês bem?
Jack abaixou a espada e engoliu
em seco. Christian fez o mesmo movimento.
— Como você... — começou Jack.
— Ah, você não sabia, Greenspan? —
provocou Agares. — Jordan tinha muitas relações no meio demoníaco. Mas, não é
sobre isso de que se trata isso.
Christian levantou a espada
novamente e o tom de voz dele indicava bastante raiva.
— Fique longe da Lizzy e não fale
o nome de nosso pai novamente! — ordenou ele.
Lizzy esperasse que Jack reagisse
e gritasse com o demônio também. Mas, diferente de Christian, ele continuou
como estava e, quando falou, ele parecia estar calmo.
— Que tipo de relações? Com você?
— Comigo também — Agares
respondeu. — Sabe, Jack, ele gostava tanto de você. A última coisa que ele
disse foi seu nome.
A fúria de Jack explodiu quando
ele levantou a espada e correu na direção de Agares. Ele levantou um braço na
direção do menino, que foi jogado contra a parede. Enquanto o demônio fazia seu
trabalho com Jack, Christian foi mais esperto. Ele alcançou a adaga na mão de
Lizzy e jogou contra Agares. A adaga apunhalou diretamente o peito dele.
Agares sentiu, pois caiu de
joelhos no chão. Lizzy via expressão agoniada no rosto dele enquanto ele
agarrava o cabo da adaga e tentava tirar de seu peito.
— Por que você está atrás de mim?
— Lizzy questionou, gritando. Ela queria jogá-lo no chão e apunhalá-lo com a
adaga mil vezes.
Jack havia se levantado e corrido
para Agares. Ele puxou-o pelo cabelo e deixou seu pescoço exposto para a espada
afiada do garoto que o ameaçava. Christian arrancou a adaga do peito do demônio
e se ajoelhou na frente dele, a adaga em sua mão, dançando para os olhos de
Agares.
— Responda, demônio! — ordenou
Jack. — Por que está atrás da garota?
Pela primeira vez, Agares recuou.
— Lizzy, venha comigo — ele
pediu. — Seu lugar não é com esses caçadores. Eles são fracos e você é tão
forte! Ninguém é como você.
— E o que eu sou?
A postura sarcástica retornou
quando o demônio sorriu.
— Poderosa. Valiosa como um
diamante.
Jack puxou mais forte o cabelo de
Agares e o demônio caiu no chão. A espada agora estava a poucos centímetros de
perfurar o pescoço dele. Mesmo de costas para ela, Jack estava enfurecido e
ofegante. Lizzy definiu como um ‘’jeito de matar’’.
— Diga quem é a bruxa que está
atrás da Lizzy — ameaçou Jack — e podemos considerar te deixar vivo.
— Quem me mandou atrás dela —
disse Agares — vai matar você também, Jack. Vai matar todos com nome das
Famílias Originais.
Lizzy queria perguntar o que era
as Famílias Originais, mas viu que não era uma boa hora. Talvez depois, pudesse
falar com Christian.
— Sabe — continuou Agares — ver
vocês dois juntos... É tão irônico!
— Bom, pelo visto você não vai falar
nada — disse Jack.
Ele levantou a espada e a
abaixou, levando-a para o pescoço de Agares. A espada fez apenas um corte no
demônio, porque assim que ela atingiu o pescoço, pulou da mão de Jack, que
cambaleou para trás. Lizzy viu o demônio levar as mãos ao pescoço, gritando de
dor. Christian olhava de Jack para o demônio e, quando resolveu atacar também,
uma fumaça negra envolveu Agares e ele desapareceu, mas não antes de dizer:
— A garota é uma maldição! Vocês
vão se arrepender!
Na mesma hora, criaturas
estranhas e deformadas invadiram a casa. Como estava escuro, Lizzy não
conseguiu distinguir muita coisa, mas viu que os olhos de alguma brilhavam.
Algumas, pareciam ser cachorros e até latim, entretanto, tinham um tamanho
muito maior. Outras criaturas eram pequenas e voavam e Lizzy achou que elas
poderiam se parecer com corvos.
— Droga! — Christian xingou.
Jack já estava firme novamente e
com a espada em mãos. Lizzy continuou parada em seu lugar, completamente
assustada com o que estava vendo. Ela contou pelo menos seis criaturas
estranhas e demoníacas, que partiram para a direção de Jack e Christian.
Nenhuma delas chegou perto de Lizzy.
Ela queria poder fazer alguma
coisa, mas sentia-se presa em seu lugar. Lizzy tinha certeza que aquela cena
diante de seus olhos eram coisa de outro mundo. Jack lutava contra os animais
que estavam no chão e Christian com os que voavam. Eles soltavam alguns
líquidos negros que soltavam fumaça quando atingiam o chão. Lizzy estremeceu no
que aquilo poderia fazer ao corpo, caso atingisse os dois irmãos.
Jack havia alcançando a adaga que
dera para Lizzy no chão e a jogou na direção de uma das criaturas, que
incendiou na hora, iluminando o cômodo durante alguns segundos, que foi
suficiente para Lizzy ver com o que Christian lutava. Realmente se parecia com
um corvo.
Depois que a criatura queimara,
Lizzy correu até lá e pegou a adaga no chão. Ela sentiu a arma quente, mas não
a ponto de não conseguir segurá-la. Jack lutava e desviava de outras duas
criaturas e Christian acabara de matar uma, que também queimou.
Lizzy queria ajudar, mas se
sentia imponente. Contudo, no mesmo instante, Jack dera um chute violento na
criatura e ela voava na direção de Lizzy. Ela gritou, ao mesmo tempo que Jack
chamara por seu nome. Inconscientemente, ela colocou a adaga em sua barriga, a
ponta apontando para frente. Quando a criatura a atingiu, ela queimou no mesmo
instante. Lizzy gritou novamente, sentindo seu corpo esquentar e suas mãos
queimarem. Quando o fogo diante de seus olhos sumiu, ela olhou para suas mãos e
podia vê-las em carne viva. Ela deixou a adaga cair no chão e encarava suas
mãos com espanto.
Jack correra na direção dela,
enquanto uma das criaturas corria atrás dela. Lizzy queria avisá-lo, mas o
único som que ela conseguia emitir de sua boca eram gritos de dor. Quando Jack
a alcançou, a criatura pulou em cima dele, a boca aberta e os dentes afiados se
mostrando. Assim que a criatura atingiu Jack, ele caiu, levando Lizzy consigo.
Ela bateu a cabeça quando tocou o chão e sentiu o corpo pesado do garoto loiro
sobre o seu. Era peito com peito, rosto com rosto. Lizzy tinha seu rosto virado
para o lado e podia sentir a respiração de Jack, os lábios dele quase colados
no rosto dela.
Lizzy sentia seu copo exausto.
Além de suas mãos, ela sentia seu cabeça latejar. Mesmo cansada, ela tentou
manter seus olhos abertos. Ela suspeitou que Jack tivesse saído de cima dela,
pois sua respiração aparentava ter voltado ao normal. Lizzy tentou criar forças
para se levantar, mas o chão se apresentava como uma opção bem mais
confortável.
Ela ouviu gritos, mas conseguiu
distinguir apenas poucas palavras e frases como ‘’acabou’’, ‘’a garota’’ e o
que era mais repetido ‘’vocês não tinham permissão’’.
Lizzy fechou os olhos. Tudo ficou
mais fácil. Ela poderia continuar ali até o fim de sua vida. Sentiu seu corpo
relaxar e até a dor da queimadura de sua mão estava se aliviando. Sua cabeça
ainda latejava e, quando ela criou forças e levou uma das mãos até a testa,
sentiu seus dedos molhados. Curiosa, ela abriu os olhos e se deparou com um
líquido meio escuro em seus dedos.
Ela quase berrou quando sentiu
mãos pesadas debaixo de suas axilas, puxando-a. Mas precisaria de força para
isso. Alguém que ela não conhecia apareceu na frente de seus olhos e começou a
dar batidas leves em seu rosto.
— Lizzy, não ceda, por favor —
dizia o desconhecido. Era um homem.
Ela tentou manter os olhos
abertos e atender ao pedido. Mas tudo era tão dolorido. E se tornou muito mais
fácil quando ela desabou em braços desconhecidos.
***
Jack sentiu a mão firme de
Christian em seu braço, impedindo-o de ir até Lizzy. Ele observou enquanto
Justin tentava levantá-la e Archer tentava mantê-la acordava, o qual ele
fracassou. Lizzy desabou nos braços de Justin, enquanto a testa sangrava os
cabelos dela ficavam sujos de poeira.
A coisa que Jack mais odiava era
quando tinha que lutar e proteger alguém ao mesmo tempo. Era uma coisa que ele
ainda tinha que melhorar em seu treinamento, mas lidar com as criaturas
demoníacas tornava a situação ainda pior. As criaturas demoníacas eram animais
que sofreram mutações por conta do sangue de demônio, mas não eram muito vistas
no mundo demoníaco, porque poucos animais sobrevivam às mutações. Os que
sobreviviam, no entanto, eram fortes e sanguinários.
Contudo, eles se encontravam,
principalmente, nas vilas das fadas. Para um demônio ter poder sobre eles, Jack
tinha certeza de que ele não era apenas um Grande Demônio. Ou ele era
extremamente poderoso, ou alguém muito forte estava por trás dele. A bruxa que
estava atrás de Lizzy.
Ele se sentia um pouco culpado
pela situação de Lizzy. Não era muito raro que caçadores se queimassem ao matar
demônios, porque isso demonstrava falta de treinamento. Por isso as espadas
eram sempre as melhores opções. Mas Lizzy sequer era uma Caçadora de Bruxas, o
que a prejudicava ainda mais.
O que o aliviava era que, pelo
menos suas mãos, ficariam curadas logo, porque não era uma queimadura mortal.
Ele mesmo já tivera essa experiência em uma de suas primeiras missões.
— Vamos levá-la para a Torre —
declarou Justin, carregando Lizzy em seus braços. — É melhor analisar essa
ferida da cabeça e aliviar a queimadura das mãos.
— Vamos no meu carro — disse
Jack.
— Jack, Harry vai ter que saber
sobre isso — disse Archer. — Você desobedeceu a uma ordem. Essa missão não era
sua. E ainda colocou a vida de Lizzy em risco.
— Jack não é o culpado, eu sou —
falou Christian.
— Christian, eu sei muito bem que
quem sempre desobedece às ordens de Harry é o Jack — disse Archer. — Só espero
que a punição não seja grave dessa vez.
— Não era para ela ter vindo —
Jack afirmou. — Foi minha culpa. Eu deveria ter impedido.
— Ainda bem que chegamos na hora
certa — disse Justin. — É hora de ir. No caminho vocês nos contam o que
aconteceu aqui.
Justin foi o primeiro a sair da
casa, seguido de Archer. Christian esperou Jack, que recuperou a adaga que dera
a Lizzy do chão. Era a lembrança mais importante que ele tinha de seu pai fazia
mais de um século que aquela adaga estava na família. Era difícil, mas ele
tentava não perder em alguma luta. Isso se tornara um trabalho muito
complicado.
Ele limpou a adaga na camiseta
enquanto seguia Christian até Justin e Archer, que tiveram que se apertar nos
bancos de trás para que não machucassem Lizzy ainda mais, que continua
desacordada.
No caminho, foi Christian quem
discorreu sobre todos os acontecimentos. Desde a insistência de Lizzy (que Jack
teria chamado de ameaça) de ir junto com os dois irmãos, passando pela luta
contra Agares e terminando em Lizzy ferida por conta das criaturas demoníacas.
Quando eles chegaram na Torre,
Christian correu para abrir a porta, enquanto Justin carregou Lizzy para dentro
e Archer foi atrás. Jack ainda ficou do lado de fora por alguns minutos,
respirando o ar puro da noite. Ele olhou para si mesmo e o viu em um estado
deplorável. A adaga e a espada estavam guardadas no cinto de armas, assim como
outras facas estiveram, quando foram perdidas no meio da luta.
Ele tirou o cinto de armas assim
que passou pela porta da Torre e fechou-a atrás de si. Justin e Archer não
estavam mais lá, mas Christian o esperava.
— Você quer conversar? —
perguntou Christian, fitando Jack. — Aquele demônio conhecia nosso pai. Pelo o
que ele disse, parece ter sido ele que o matou.
Jack suspirou.
— É estranho — disse ele. — Eu
passei três anos tentando descobrir quem o matou e hoje o demônio estava na
nossa frente. Só não o matei porque ele tinha muito mais a dizer.
— Concordo — disse Christian. —
Acho que Harry pode nos dar algumas respostas. Eles eram muito amigos quando
nosso pai morreu. Pensei que, na hora que ele for nos dar alguma punição, nós
falarmos sobre isso. Quem sabe não conseguimos distrai-lo?
Jack viu um meio sorriso nos
lábios de seu irmão. Jack se considerava um grande guerreiro, mas a mente de
Christian estava a milhões de níveis superiores das habilidades físicas de
Jack. Ele sempre pensava muito à frente dos acontecimentos atuais.
— Talvez possa dar certo — concordou
Jack. — Até porque, se o nosso pai tiver negócios sujos por aí, Harry vai
ativar na hora o senso de proteção dele. E ele vai querer nos manter longe
disso.
— Vamos guardar nossas armas —
chamou Christian. — E melhorar o nosso estado. Melhor que o Harry não nos veja
assim.
Jack e Christian seguiram para o
corredor estreito do lado esquerdo do cômodo de entrada da Torre. Aquele
corredor levava para a ala de armas e luta dos Caçadores de Bruxas. Era um
corredor bem iluminado e de maior importância na Torre. Era ali que se
encontrava a Sala de Armas, a Sala de Treinamento, a Sala de Aulas e as celas,
que não eram usadas há décadas. As celas eram usadas quando algum Caçador de
Bruxas se tornava um perigo para sua própria espécie, em decorrência de algum feitiço
ou de traição.
Os dois irmãos se dirigiram para
a primeira porta do corredor. A Sala de Armas se estendeu diante dos olhos
deles. Ela era preenchida com mesas que estavam com espadas sobre elas, limpas
e polidas. Nas prateleiras, haviam diversas armas, desde espadas menores,
pistolas, facas, adagas, chicotes, bestas, arcos e flechas, armas orientais
bastante amadas por Scott, machados, entre tantas outras.
Jack tinha grande apreço
principalmente por espadas de tamanho médio, que ele podia carregar no cinto de
armas, adagas e facas de arremessos. Sempre que estava com uma faca na mão,
pronta para arremessá-la, ele se lembrava das palavras de seu pai. Facas não
voam, Jack.
A Sala de Armas era extensa e
contava com uma grande coleção de armas. Havia chegado no dia anterior, uma
nova remessa, vinda do Conselho Supremo. Todas as armas eram feitas com o
Sangue de Anjo e isso as tornava poderosas e o suficiente para deter demônios e
magia negra.
Havia armários pregados na parede
também. Dentro deles, estavam produtos de limpeza para que as armas que não
eram perdidas em batalhas ficassem limpas e um bom estado para serem usadas
novamente. Jack não se importava muito com isso, mas Karine era fascinada por manter
todas as armas limpas, e isso também incluía mantê-las longe de poeira. Jack
tinha que admitir para si mesmo que gostava do lado maníaco por limpeza de
Karine.
Pertos desses armários, haviam
latas de lixo grandes, para que se pudesse depositar roupas, calçados ou
qualquer vestígio nojento de luta. Christian arrancou a jaqueta e camiseta
rasgadas e jogou-as dentro de uma das latas. Jack olhou para si mesmo e
agradeceu mentalmente por sua jaqueta preta de couro não ter sofrido nenhum
dano a não ser manchas de litros de sangue.
Ao tirar suas armas e o cinto,
Jack se deparou com um celular em seu bolso. Ele quase nunca levava celular
para suas missões, porque sabia que ele não voltaria vivo. Mas era o celular de
Lizzy. Amanhã ele devolveria para ela.
Assim que os dois meninos
guardaram suas armas e jogaram fora alguns vestígios da luta que consideravam
irreparáveis, eles saíram da Sala de Armas. Pela primeira vez naquela noite, o
cansaço bateu sobre Jack.
Jack seguiu Christian pelas
escadas assim que voltaram para a entrada Torre. Ele sabia para onde seu irmão
estava indo: ao encontro de Lizzy. Jack pensou que Justin e Archer pudessem ter
levado a garota para o quarto que ela estava. E ele estava certo.
Logo ao entrar, os dois meninos
se depararam com Justin e Archer de um lado do quarto, olhando apreensivo para
a direção da cama, onde Lizzy estava. Ela estava deitada e parecia dormir
tranquilamente. As mãos dela estavam enroladas em uma gaze branca e um curativo
havia sido na testa dela. Ao lado dela, de pé, estava Angelina Freen, que ainda
limpava os vestígios de sangue na menina.
Angelina Freen era uma senhora
que beirava aos sessenta anos. Ela tinha os cabelos tingidos de castanho, mas
fios brancos apareciam na raiz do cabelo. Quase sempre, Angelina mantinha uma
postura rígida e severa, sempre esperando obediência e respeito de qualquer um.
Até mesmo Harry se submetia à severidade de Angelina, que sempre procurava
zelar pela bem estar da Torre.
Quando Christian fechou a porta
atrás de si, os olhos castanhos de Angelina se direcionaram para os dois
irmãos. Jack quis sair correndo ao ver a fúria nos olhos da mulher e se
preparou para as duras palavras dela.
— Vocês dois têm noção que
poderiam ter matado uma inocente hoje? — disse ela, guardando todos os itens que
usou para cuidar de Lizzy. Jack viu gazes, remédios, seringas e curativos. —
Mas é claro que não. Vocês só pensam em si mesmos.
Angelina pegou a pequena maleta
de primeiros socorros e andou na direção de Jack e Christian. Ela usava uma
camisola preta e um robe por cima, que se arrastavam no chão à medida que ela
caminhava. Ela parecia uma verdadeira visão do mal.
— Fiquem a vontades para colocar
a vida de vocês em risco — disse ela. — Mas jamais levem essa garota com vocês
novamente. Caçadores de Bruxas não colocam humanos em perigo. É a regra mais
importante de todas!
Na última frase, Angelina havia
elevado o tom de voz. Nem Jack e nem Christian disseram nada, porque
simplesmente Angelina não havia dito nenhuma mentira. Quando Jack desviou os
olhos na direção de Justin e Archer, viu que eles também não olhavam para
Angelina e mantinham a cabeça baixa. Jack suspeitava que Harry, Justin e Archer
tinham algum respeito intenso demais com Angelina, quase como se ela pudesse
matar alguém na frente deles e eles não abririam a boca para falarem nada,
apenas correriam para esconder o corpo.
— Vão se deitar — ela mandou,
abrindo a porta. — Amanhã de manhã vou conversar com Harry. Não ousem
incomodá-lo, ele está dormindo.
Angelina saiu do quarto, deixando
os quatros homens sozinhos com Lizzy. Jack finalmente conseguiu respirar com
leveza.
— Essa mulher ainda vai me fazer
morrer de culpa um dia — disse Christian, quebrando o silêncio. — Por que vocês
a chamaram? — perguntou ele para Justin e Archer.
— Ela nos encontrou trazendo
Lizzy para cá — respondeu Archer.
— E, obviamente, ela não ia
deixar se intrometer — disse Jack, com raiva.
— Não fale assim, Jack — Justin
repreendeu. — Todo mundo aqui sabe que Angelina é a melhor pessoa pra cuidar
dos feridos. Lizzy vai acordar bem amanhã e quase 100% curada.
É claro que Jack sabia. Muitos
Caçadores de Bruxas não se envolviam com o mundo e a cultura dos humanos, mas
Angelina e alguns outros eram diferentes. Como muitos Caçadores de Bruxas se
feriam na luta contra demônios e bruxas, muito acabavam por estudar medicina.
Não era raro que uma pancada forte na cabeça pudesse trazer mais consequências
que um feitiço.
— Vamos — Archer chamou. — Se
Lizzy precisar de qualquer coisa, Scott está no quarto ao lado. É melhor que
ela descanse.
Mesmo não querendo, Jack
acompanhou os outros para fora no quarto. Justin e Archer seguiram seus
caminhos para os andares de cima, enquanto Jack ainda ficou alguns minutos com
Christian. Eles combinariam como falariam com Harry na manhã seguinte e depois
cada um seguiu para o seu quarto. Ainda ficou latejando na cabeça de Jack todas
as palavras que Agares dissera, principalmente o nome de seu pai.
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