Lizzy foi a última a entrar na
Torre. Ela se encontrou em um cômodo grande, mas quase vazio, se não fosse por
uma escada de uma largura enorme. No alto dela, Lizzy percebeu que havia
corredores dos dois lados. Quando ela deu mais alguns passos, percebeu que de
cada lado do cômodo se estendia um corredor que ela não conseguia ver para onde
dava. As luzes iluminavam as paredes descascadas e o piso de madeira arranhado.
As paredes e escadas tinham um
tom marrom escuro, o que escurecia o cômodo. Perto da escada, havia uma enorme
janela, que estava coberta por uma cortina branca.
— Eu te disse que era feio —
disse Jack, ao lado de Lizzy.
— Não é feio — retrucou
Christian, censurando Jack e parando ao lado dele. — É porque ninguém cuida.
— Bom, o meu quarto é lindo —
falou Karine. E se virou para Lizzy: — vamos, vou levar você até o Harry.
— Eu levo — disse Jack. Ele
segurou a mão de Lizzy e saiu arrastando-a até a escada. — Prepare o meu
almoço, Karine! — ele gritou, antes que ele virasse para o corredor do lado
esquerdo puxando Lizzy.
Lizzy se sentiu dando voltas.
Jack explicou que os dois corredores davam para o mesmo lugar, devido a forma
circular da Torre. Eles passaram por várias portas, até que encontraram uma
escada parecida com a da entrada, mas de tamanho menor.
— Desculpe, a Torre não conhece o
elevador ainda — Jack falou. — Ainda bem que são só cinco andares. O escritório
do Harry fica no terceiro.
Enquanto eles atravessavam o
segundo andar, Jack afrouxou o aperto na mão de Lizzy, até que, quando pararam
em uma porta dupla no terceiro, ele soltou sua mão. Ele deu um sorriso para
Lizzy antes de bater duas vezes na porta.
Lizzy ouviu uma voz grossa gritar
‘’entre’’. Jack abriu a porta e entrou no cômodo, com Lizzy o seguindo. Era uma
sala grande em que, do lado oposto ao da porta, havia uma grande mesa cheia de
papéis e livros. De cada lado da sala, havia sofás e neles, tinha espadas e
facas e Lizzy recuou ao ver aquilo. Em cada canto havia grandes armários e a
sala estava decorada com quadros de paisagens e, o maior de todos, atrás da
cadeira em que um homem estava sentado, era de uma mulher de cabelos castanhos
e um vestido vermelho de época.
— Que formalidade foi essa, Jack?
— perguntou o homem, levantando-se da cadeira e passando ao redor da mesa,
aproximando-se de Jack e Lizzy.
— Queria mostrar para Lizzy que
eu sou educado.
O homem olhou para Lizzy e
estendeu a mão
— Meu nome é Harry, sou o diretor
da Torre — ele se apresentou e Lizzy estendeu sua mão para cumprimenta-lo. —
Deixe-nos sozinho, Jack.
Jack fez careta.
— Eu fiz todo o trabalho difícil
e agora você me expulsa?
— Sim — Harry respondeu. — Saia.
Jack resmungou antes de sair do
escritório. Lizzy olhou para Harry. Ele tinha cabelos castanhos curtos
enfeitados por alguns fios brancos. Ela julgou que ele estava se aproximando
dos quarenta anos. Os olhos dele eram verdes iguais ao Karine. A pele branca do
rosto dele estava coberta por algumas rugas perto dos olhos e uma barba mal
feita que se estendia até o pescoço.
Harry usava uma camisa de botões
branca e uma calça preta, o que lhe dava uma aparência respeitável. Mas os
olhos cansados passavam a impressão de alguém que há muito tempo não se
cuidava.
— Bom, sente-se — ele ofereceu,
voltando a sua cadeira e indicando uma das cadeiras do lado oposto à sua. —
Esperava muito poder falar com você.
Lizzy o encarou antes de falar.
— Quem é você? Quem são aqueles
malucos que me trouxeram para cá? E que tipo de homem tem olhos amarelos?
Lizzy tentou segurar o tom de sua
voz no início, mas no final de sua última pergunta, se viu gritando e em pé.
Novamente, Harry indicou a
cadeira para Lizzy e ela voltou a se sentar.
— Você precisa ter calma — disse
ele. — Esse tipo de situação não acontece muito por aqui.
— Que tipo de situação? — ela
questionou.
— De trazer uma humana para a
Torre.
Assim que disse isso, Harry se
recostou em sua cadeira e cruzou as pernas. Ele observou Lizzy, talvez
esperando que ela dissesse alguma coisa. Quando ela continuou em silêncio,
absorvendo as últimas palavras dele, Harry se inclinou para frente, as mãos
alcançando a mesa.
— Nós somos Caçadores de Bruxa,
Lizzy — continuou ele. — Aquele homem que estava com você era um demônio. A
criatura que te perseguiu ontem era um demônio menor. Provavelmente estavam
trabalhando para uma Grande Bruxa.
— Bruxa? — perguntou Lizzy,
arqueando uma sobrancelha. — Você está me dizendo que existem bruxas.
Harry soltou um riso baixo.
— É isso, Lizzy. Quase nunca
temos essa conversa porque nem demônios e nem bruxas perseguem humanos. Eles
simplesmente o usam. Provavelmente você não vai entender, mas eles te prenderam
em uma outra dimensão.
Lizzy ficou boquiaberta, sem
tirar os olhos de Harry.
— Porque você tinha algo que eles
queriam — ele continuou. — E julgaram que você era forte, a ponto de te
prenderem. — Ele voltou a se recostar na cadeira e a cruzar as pernas. — Bom,
são minhas suposições.
Lizzy tentou assimilar as
palavras de Harry. E então chegou à conclusão de que continuava não entendendo
absolutamente nada. Julgando que aquelas pessoas não fossem lunáticas e
praticantes de algum culto, não fazia sentido alguns demônios e bruxas
perseguirem-na porque ela só era uma simples garota de dezesseis anos do
Brooklyn.
— Isso não faz sentido algum —
disse ela, inclinando para frente e colocando seus braços em cima dos papéis da
mesa. — Eu sou normal.
Harry respirou pesadamente.
— Pelo visto, não é, Lizzy. — Ele
parou, parecendo lembrar-se de algo. — Qual seu sobrenome?
Ela pensou em questionar, mas
desistiu quando viu que não adiantaria nada.
— Duncan.
— Não conheço nenhum Caçador de
Bruxas ou feiticeiro com esse sobrenome — falou Harry. — Quem é sua família?
Lizzy se sentiu desconfortável
com o rumo da conversa, pois odiava falar de seus que pais não conhecia e de
sua tia que a desprezava.
— Eu só tenho minha tia —
respondeu. — E ela não é ninguém.
— Ela pode ser...
— Não! — Lizzy o interrompeu. —
Ela não é ninguém. Eu posso garantir isso. Ela não passa de uma mulher
desprezível, só isso.
Harry parece ter percebido que
esse não era um assunto que Lizzy se sentia confortável, pois mudou o rumo da
conversa.
— Nós vamos ajudar você — Harry
disse. — Esse é o nosso trabalho.
— Como é o trabalho de vocês?
Caçar demônios? — Lizzy riu.
— Há muitos anos, surgiu magia no
mundo — explicou Harry. — Surgiram as bruxas, as feiticeiras e os Caçadores de
Bruxas, que têm a obrigação de proteger esse mundo. Bruxas são perigosas e usam
a magia negra para fazer o mal. As feiticeiras são o contrário delas e
constantemente nos ajudam. Essa mulher aqui — ele virou-se para o quadro atrás
dele e apontou para a mulher de vestido vermelho — foi a Primeira Caçadora.
Luna Jones.
Os traços da pintura pareciam ter
sido bem feitos. Lizzy não poderia saber se o quadro era idêntico à mulher
apresentada, mas cada traço parecia ter sido com extremo cuidado. O cabelo
castanho estava preso no alto da cabeça e alguns fios caíam na frente do rosto.
O pescoço estava com alguns colares de ouro e nas orelhas, pendiam brincos
pequenos e de ouro também. Havia um decote discreto do vestido vermelho da cor
de sangue. No quadro, a mulher estava apresentada somente até a cintura, mas
mesmo com poucos detalhes, como os lábios grossos com um meio sorriso, os olhos
castanhos pequenos e a pele extremamente pálida, Lizzy julgou como uma mulher
muito bonita.
— Ela parecia ser muito bonita —
ela resolveu dizer.
— Ela era uma guerreira — disse
Harry. — A melhor que já existiu.
Harry levantou-se e Lizzy fez o
mesmo.
— Fique aqui hoje — ele propôs. —
A Torre tem vários quartos e a maioria está desocupado. Vou colocar meus
Caçadores de Bruxas para investigar o que está acontecendo.
— Todos eles são...
— Sim. Todos que você encontrar
aqui na Torre.
Lizzy mordeu o lábio, nervosa.
Não tinha como ela passar uma noite na Torre sem que Miranda não soubesse.
Quando ela voltasse, iria ter que lidar com a fúria de sua tia. Mas se fosse
embora, Agares e Blair poderiam voltar e fazer coisas piores com ela.
— A minha tia...
— Eu entendo — Harry interrompeu,
aproximando-se de Lizzy. — Depois podemos ajudar você a se explicar. Pelo menos
por hoje, fique aqui. Se preferir, ligue para ela e invente alguma coisa.
Lizzy resolveu não fazer piada
sobre um homem incentivando-a a mentir para sua tia, até porque Harry
aparentava ser muito sério.
— Eu perdi meu celular —
respondeu ela. — Melhor eu me resolver com ela depois, se eu for ficar aqui. Ou
ela vai rodar Nova York inteira até me achar.
— Como preferir.
Ficar junto com os Caçadores de
Bruxas — pensar nisso fazia seu estômago revirar porque parecia muito patético —
na Torre e ficar sem dar notícia para Miranda faria com que sua tia surtasse.
Lizzy estremeceu ao pensar no que ela poderia fazer depois. Na hora, veio na
sua cabeça lembranças de quando ela tinha uns doze anos e ficava horas na casa
de Lucie. Quando isso acontecia, Miranda aparecia com sua ira pegando fogo e
arrastava Lizzy pelos cabelos, literalmente.
Contudo, ficar na Torre também
significava ficar longe de Miranda. O pensamento a fez querer dar pulos de
alegria. Ela só queria seu celular agora para que pudesse mandar várias
mensagens felizes para Lucie.
— Como isso vai funcionar? —
perguntou ela, inclinando a cabeça para o lado.
— Vou mandar alguém para
investigar a casa onde você estava — respondeu ele. — Hoje à noite. Amanhã vou
poder te dar algumas respostas.
Lizzy pensou naquele lugar que
parecia deserto, nas expressões no rosto de Jack que parecia que ele não levava
nada a sério e nas reclamações da Karine. Ela chegou a conclusão que se não
morresse por Agares, morreria de tédio.
— Espera aí! Eu vou ficar aqui
fazendo o que?
Harry encolheu os ombros.
— Bom... — seu rosto ficou
pensativo. — São só algumas horas. O sol já está se pondo. Daqui algumas horas
você pode querer... dormir?
Lizzy suspirou. Aparentemente,
Harry era a pessoa menos indicada para lhe dar conselhos sobre o que fazer. Ela
olhou para a mesa dele, cheia de papéis e livros. No chão, perto da mesa, ela
ainda conseguiu ver duas canetas.
Ela tinha acabado de conhecer
Harry, mas tudo naquele escritório indicava que ele não conhecia a palavra
organização. E, provavelmente, não conseguia se desligar de seu trabalho.
— Vamos, vou te levar para escolher
um quarto — disse Harry. — Você pode querer ficar sozinha para assimilar as
coisas. Não é fácil.
— Como você pode saber que não é
fácil? Você já foi perseguido e deu de cara com adolescentes super mal educados
e metidos?
Lizzy esperava tudo, menos que Harry
caísse na risada.
— Lizzy, eu convivo com eles
todos os dias. Eu sei que não é.
Harry alcançou a maçaneta,
girou-a e a porta se abriu. Lizzy o seguiu quando ele saiu do escritório e ela
e o diretor da Torre se viram encarando Jack sentado no chão e olhando para os
dois com olhos inocentes.
— Oh, que surpresa encontrar
vocês — disse Jack, levantando-se. Lizzy reparou que ele ainda estava com a
mesma roupa preta e suja.
— Quando eu mandei você sair, não
disse para ficar do lado de fora escutando — censurou Harry, mas Lizzy não
conseguiu sentir raiva no tom de voz dele.
— Pensei que você poderia
precisar de algo — disse Jack, sorrindo de orelha a orelha. — Afinal, estou
aqui como seu aprendiz.
Harry estreitou os olhos para
Jack, mas não respondeu.
— Vou levar Lizzy para um dos
quartos. Acho que ela precisa ficar um pouco sozinha.
— Eu levo — Jack se prontificou.
— Não se preocupe.
Harry olhou para Lizzy, que deu
de ombros. Jack parecia ser meio insuportável, mas ficar perto de Harry lhe
dava vontade de apresentá-lo a um espelho e, talvez, a uma terapia.
— Por mim, tudo bem.
Lizzy teve a impressão que ouvir
Harry resmungar, mas ele só voltou para o escritório e fechou a porta. Ao
desviar os olhos da porta para Jack, o viu olhando-a com expectativa.
— Vamos? — ele chamou. — Tem um
quarto no segundo andar que era de uma menina que morava aqui. Acho que vai
gostar dele.
— Ela foi embora porque achou um
lugar mais bonito para morar? — perguntou Lizzy enquanto seguia ao lado de Jack
para a escada que levava ao segundo andar.
— Ela morreu — respondeu ele
tranquilamente.
Lizzy ficou envergonhada.
— Desculpe.
— Relaxa. Ela deve estar
queimando no inferno agora.
Aquelas palavras só fizeram Lizzy
se sentir pior. Além de ela ter zombado da morte de alguém, Jack simplesmente
não se importava. O pior era que ele conhecia a garota. Ela imaginou o que ele
faria se fosse a morte dela, uma desconhecida para ele.
Os dois desceram as escadas e
pararam em frente a uma porta. Jack contou alguma nos dedos e balançou a cabeça
negativamente e então seguiu para a porta do quarto ao lado. Abriu a porta e
entrou, com Lizzy em seu encalço.
O quarto era maior que o de
Lizzy. Diferente do piso na entrada da Torre, o deste quarto estava conservado
e mais limpo. A pintura era do mesmo tom que a Torre e o escritório de Harry.
Do lado oposto a porta havia uma enorme janela aberta e as cortinas de um tom
salmão estavam puxadas, de modo que Lizzy conseguia ver o horizonte lá fora. Do
lado direito havia uma cama de casal com uma colcha dourada e vários
travesseiros e almofadas. Perto, havia uma escrivaninha e alguns livros
empilhados. Do lado esquerdo, havia um espelho que deveria ter uma altura maior
que a de Lizzy, uma penteadeira pequena e um guarda-roupa embutido na parede.
Ao adentrar mais no quarto, viu uma porta ao lado da janela aberta.
— O que achou? — perguntou Jack,
caindo na cama, com os braços atrás de cabeça. — Lacey era uma megera, mas
tinha bom gosto. Ali — apontou para a porta ao lado da janela. — É o banheiro.
Acho que ela deixou alguns produtos femininos. Deve ter algumas roupas no
guarda-roupa também. Aposto que Karine pegou.
Lizzy fez careta ao pensar em
usar coisas de uma menina morta que ela nem conhecia.
— Ou, então, Angelina deve ter
queimado — continuou Jack, espreguiçando-se. — Ela é um pouco cética.
— Cética? — Lizzy perguntou,
andando pelo quarto, inspecionando-se.
Jack sentou-se ereto.
— Ela morreu de uma forma meio...
esquisita.
Lizzy encarou Jack, esperando que
ele continuasse.
— Morte súbita. Mas, para mim,
alguém a enfeitiçou e o feitiço foi tão forte que resistiu a barreira da Torre.
Ela morreu assim que voltou de uma missão.
— Que barreira?
— Demônios e magia negra não
conseguem entrar na Torre — respondeu ele. — Então, agora temos quase certeza
de que você é coisa boa.
Lizzy sorriu falsamente ao ser
chamada de ‘’coisa boa’’. Jack devolveu um sorriso cheio de dentes e voltou a
se deitar na cama.
— Você está realmente todo sujo
deitado na cama que eu vou dormir essa noite?
Jack levantou-se.
— Desculpe. Vou tomar um banho.
Quer vir comigo?
Lógico que Jack não estava
falando sério, mas Lizzy não sabia como responder aquilo. Apesar de achá-lo um
pouco insuportável, ele era muito bonito e um charme exalava dele sem que ele
fizesse nada. O cabelo dele estava um pouco bagunçado, o que o deixou ainda
mais bonito.
— Estou brincando, anjinho. No
momento, nós somos apenas amigos.
Lizzy queria discutir com ele e
dizer que não tinha acreditado, mas ele foi o rápido o suficiente para dizer um
‘’eu já volto’’ e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Ao se aproximar
da cama, viu que a sujeira da roupa de Jack não havia contaminado a colcha
ainda.
Finalmente sozinha, ela sentou na
beirada da cama e respirou pesadamente. Um peso estava em suas costas e seu
estômago se revirava cada vez mais. Ela não cansava de repetir para si mesma o
quanto aquela situação era louca e queria desesperadamente que aquilo fosse só
um sonho ou uma alucinação. Mas ela sabia que não era.
***
Jack saiu do quarto de Lizzy
rindo consigo mesmo. Uma de suas diversões no momento estava sendo ver Lizzy
desconfortável com suas brincadeiras. Ele não a conhecia, mas apostava que ela estava
achando-o insuportável e querendo jogar nele todos os xingamentos que conhecia.
No caminho para o seu quarto,
Jack parou em frente às portas duplas do quarto andar. Ao mesmo tempo que ele
achava a Torre pequena por fora, ele a achava uma mansão por dentro. Era fácil
se perder ali e, mais fácil ainda, confundir os cômodos. Ao levar Lizzy para o
quarto que era de Lacey, ele quase entrou no quarto de Scott.
Ele odiaria se deparar com Scott
sem roupa, porque o idiota tinha a mania de quase nunca trancar a porta.
Experiência própria e recente para Jack.
Ele estava de frente às portas
que levavam a sala de reunião na Torre. Como Nova York era uma das principais
cidade no mundo demoníaco, não era raro que acontecesse reuniões ali. Apesar de
Harry ser bastante desorganizado com seu escritório, ele era admirado por
outros líderes de outras Torres e muitos o visitavam, inclusive feiticeiras e
fadas.
As risadas fizeram com que Jack
entrasse na sala. Não havia muito coisa dentro, a não ser uma extensa mesa com
várias cadeiras ao redor e uma lareira que só era acendida no inverno. Sentados
nas cadeiras estavam Karine Morgan, Scott Hayward, Archer Kobald e Justin
Dumpsey.
A risada alta de Karine se
extinguiu com o barulho da porta se abrindo, mas quando ela viu que era Jack,
voltou a rir. Scott olhou com desprezo para Jack enquanto passava a mão pelo
cabeleira ruiva. Os olhos castanhos do garoto seguiram Jack enquanto ele puxava
uma cadeira e se sentava.
— O que está acontecendo aqui? —
perguntou ele, colocando os pés em cima da mesa.
— Você está todo sujo, Jack —
censurou Archer. — Vá tomar um banho.
Archer e Justin atuavam como
professores e assistentes de Harry. Diferentemente de Angelina Freen, que
mantinha uma carranca e uma postura rígida com os adolescentes, Archer e Justin
agiam quase que como eles. Eram dois homens que beiravam aos trinta anos e
estavam na Torre porque, ou sua família estava toda morta (como no caso de
Archer), ou simplesmente gostava de Nova York e não queria pagar um lugar para
morar (como no caso de Justin).
— Eu estava indo, mas não resisto
a uma conversa com risadas — respondeu Jack, sorrindo para Archer, de cabelos
pretos e olhos castanhos escuros.
Ele tinha uma pele morena e um
sorriso brilhante e branco, muito semelhante à Justin. Vestia-se sempre com camisas
de botões e calças de linho. No ano passado, na comemoração do aniversário dos
Caçadores de Bruxas Originais, Jack se divertiu com Archer e Justin
conquistando várias mulheres.
— Estávamos falando da nova
convidada — respondeu Justin, de cabelos castanhos na altura dos ombros e olhos
cinzentos. Diferentemente de Archer, Justin amava camisetas lisas e calças
jeans. — Karine também estava se vangloriando da bruxa que ela quase matou.
— Saiu fumaça igual carne
queimada — Karine falou.
— Harry já conversou com ela? —
Archer quis saber. — É Lizzy, não é?
— Sim — respondeu Jack. — Ela
está no quarto que era de Lacey agora. Tomara que não se assuste com o fantasma
dela.
Karine bufou.
— Você está parecendo Angelina
falando desse jeito — disse ela. — Pelo menos temos mais uma menina agora. Essa
Torre está tão vazia e com tanta testosterona.
— Você que não quis aproveitar
Lacey enquanto ela estava aqui — Scott brincou. — Ou qualquer outra das meninas
que passaram por aqui.
— Elas sempre me tratam como
criança — Karine falou, irritada.
— Olha, eu não deveria dizer isso
— começou Justin — mas li uma das cartas que Harry recebera que um Grupo das
Caçadas Especiais vai vir para Nova York. Pode chegar presença feminina aqui.
Karine deu de ombros.
— Que seja — disse ela,
levantando-se. — Todo mundo das Caçadas Especiais é velho e chato.
Na mesma hora, a porta se abriu e
Harry entrou na sala de reuniões. Jack se divertia porque Harry sempre se
irritava ao ver que a sala de reuniões havia se tornado um ninho para fofocas.
Ele sempre levava aquele lugar muito a sério.
— Sabia que estavam aqui — disse
ele, aproximando o suficiente para que pudesse puxar uma cadeira e sentar, mas
não o fez. — Archer e Justin, quero que investiguem a casa para onde levaram
Lizzy hoje. Jack, passe todas as informações sobre a localização para eles.
— O quê? — Jack ficou irritado. —
Você deveria me mandar para investigar! Eu que fiquei o dia inteiro vigiando a
Lizzy, eu que consegui passar pela barreira que aquele demônio havia colocado.
É hora do meu triunfo.
— Você nem se deu ao trabalho de
tomar um banho e já quer outra missão? — questionou Harry. — Além do mais, você
precisa dormir.
Jack queria protestar e fazer
alguma piada, mas não conseguiria disfarçar o quanto estava cansado. Ele
passara quase a madrugada inteira observando a casa de Lizzy depois de levá-la
de volta. Havia sido um golpe de sorte ele ver o demônio menor e o segui-lo até
a casa da garota. Quando o amanhecer dera seus primeiros indícios, ele voltou
para a Torre e contou o que havia acontecido para Harry, mas sem dar detalhes.
Afinal, Harry não precisava saber
que Jack saía quase noite para investigar a morte de seu pai. Ou ele teria uma
punição maior que aquela que Harry quisera dar para ele por se envolver em uma
caça não autorizada.
— Tragam qualquer coisa que vocês
acharem importante, qualquer informação, qualquer detalhe — Harry continuou. —
Não podemos manter uma humana na Torre.
— A gente estava fazendo uma
aposta, Harry — revelou Karine. — Archer acha que é uma humana que vai ser
usada para um ritual. Justin e eu achamos que é uma feiticeira perdida. Já
Scott só a acha uma idiota mesmo.
Scott deu de ombros.
— A sorte não bateu na porta
dela. Ter uma bruxa atrás de você deve ser péssimo — disse ele.
— Lacey que o diga — resmungou
Jack.
Harry revirou os olhos.
— Parece que hoje a aula vai
ficar por conta da Angelina — disse Archer. — Ela vai acabar com a gente — ele
falou para Justin.
— Ela vai é acabar com a gente
— Scott murmurou.
— Passem na minha sala mais tarde
— disse Harry para Archer e Justin. — E não deem detalhes para Jack. Ele está
proibido de sair da Torre essa noite.
Jack se levantou rapidamente e
encarou Harry furioso.
— Você só pode estar brincando! —
ele gritou. — Eu salvei a Lizzy.
— Isso
não ignora o fato de que você estava em uma missão sem a minha permissão —
falou o diretor da Torre. — E, por favor, vá tomar um banho!
Harry saiu da sala de reunião.
Jack nem olhou para os outros e também saiu. Ele se dirigiu para o quinto andar
e então, seguiu para o seu quarto. Era um dos maiores quartos da Torre e
mantinha a mesma pintura que o resto dos cômodos. O guarda-roupa grande e
escuro ficava do lado oposto ao da porta. Do lado direito estava a janela
aberta e, do lado dela, a cama bagunçada. De frente à sua cama, havia uma mesa
grande o suficiente para que Jack pudesse depositar todas as suas bagunças, de
acessórios até facas sujas que ele demorava para limpar.
Seu olhar grudou em sua cama de
uma forma que ele não se conteve. Arrancou a roupa suja e caiu em sua cama,
agradecendo mentalmente por finalmente ter um descanso.
***
Lizzy estava deitada cama
entediada e pensativa quando a porta se abriu em um estrondo. Uma figura loira
e baixa apareceu em sua frente. Karine havia tirado a roupa usada especialmente
para matar bruxas e agora estava usando uma blusa preta e justa de mangas
curtas, shorts jeans e tênis preto. Parecia uma garota normal de dezesseis
anos.
Lizzy achava Karine uma das
meninas mais bonitas que já vira. Ela, sem dúvidas alguma, seria uma das
garotas populares do colégio e que todos os meninos fariam de tudo para
namorar. Até mesmo quando ela cruzava os braços e ficava te olhando com um
olhar mortal.
— Estou entediada — disse ela. —
Vamos fazer alguma coisa, humana.
A voz de Karine era firme o
suficiente para Lizzy fazer com um arrepio subisse pelo corpo dela.
— Humana? — questionou Lizzy. — E
você é o quê?
Karine descruzou os braços e riu.
Ela se aproximou e se sentou na beirada da cama.
— A próxima Caçadora de Bruxas
mais admirada do mundo demoníaco.
Lizzy suspirou. Já estava cansada
de todos aqueles termos, ‘’Caçadores de Bruxas’’, ‘’demônios’’, ‘’mundo
demoníaco’’, ‘’Torre’’ e alguns mais que ela nem conseguia se lembrar. Parece
um mundo totalmente distante e de filme.
— Entendi — Lizzy resolveu dizer.
Karine estava olhando para a outra
menina com expectativa, a qual ela não respondeu. Lizzy acabou dando de ombros,
por não saber mais o que dizer.
— Vamos fazer o seguinte — Karine
disse, levantando-se e colocando as mãos na cintura. — Eu vou te apresentar a
tudo sobre o meu mundo. Assim, você vai ficar mais legal e vai se empolgar
comigo. De qualquer maneira, depois que tudo isso acabar e você for embora,
suas lembranças sobre isso vão ser apagadas mesmo.
Lizzy se levantou rapidamente,
revoltada.
— Como assim apagar minhas
lembranças? — ela gritou. — Isso é um abuso!
Karine revirou os olhos.
— Para de ser boba — falou ela. —
Não tem por que você querer saber sobre tudo o que eu vou te contar. Você nem
vai ver as coisas que você viu de novo. Antes que isso seja, você vai ser
morta. Bruxas e demônios não deixam rastros. E ninguém quer saber de humanos
dando palpites que eles acharem serem o certo. Temos as nossas próprias regras
aqui, querida.
Apesar de achar um absurdo, Lizzy
sabia que Karine tinha razão. Seria muito perturbador saber da existência
daquele mundo e nunca saber quando você poderia ser trazido para o meio disso
ou não. Ela passara todos os seus anos em Nova York sem sequer imaginar que
algumas das histórias que lera sobre demônios ou bruxas pudesse ser verdade.
Ela nunca vira nada. Nem ela e nem ninguém.
— Até porque — continuou Karine —
se você comentasse sobre isso com alguém, ninguém acreditaria. Você só está
acreditando porque está vivendo isso e viu uma bruxa fazer magia na sua frente.
Lizzy reparou que Jack e Karine
eram muito parecidos em suas atitudes. Ela já havia cogitado a ideia de que
eles pudessem ser namorados, mas e se fossem irmãos? Os dois eram loiros, tinha
a mesma atitude de superioridade e de dono da razão, apesar de que Karine era
mais séria.
E, agora que pensara, ela
realmente precisava saber das coisas que Karine, Harry e Jack falavam para ela.
Ela sequer sabia alguma coisa das pessoas ao seu redor.
— E então? — questionou Karine. —
O que me diz? Aceita ser divertida por alguns momentos e ter a melhor professora
do mundo demoníaco ao seu dispor?
— Aceito.
Karine deu pulinhos de alegria.
Mais feliz do que Karine havia ficado com a aceitação de Lizzy, só Lucie quando
era mimada por seus pais.
— Pois bem — disse Karine,
aproximando-se de Lizzy e pegando as mãos dela. Ela sentou-se na cama, levando
a outra garota consigo. — Vamos começar com os moradores aqui. No momento, não
tem muitos. Dois meses atrás, haviam quase trinta pessoas morando aqui. Mas
hoje, somos em... — ela parou, contando nos dedos. — Hoje nós somos apenas
oito.
— Por que diminuiu tanto assim? —
perguntou Lizzy.
— Ah, dois morreram semana
passada — ela explicou. — Teve dois meninos que foram embora duas semanas
atrás. Outros, acabaram voltando para o Conselho Supremo...
— Conselho Supremo? — interrompeu
Lizzy, fazendo careta.
— A gente vai chegar nessa parte
ainda — respondeu Karine. — Continuando, as pessoas vêm e vão. Fiquei sabendo
que vão chegar mais ainda essa semana. A Torre é ótima quando se é nova na
cidade, mas depois, você descobre que existem lugares mais modernos.
Lizzy queria fazer uma observação
sobre aquilo, mas a garota loira não deu tempo e continuou falando.
— Começando por mim — disse ela
alegremente e apontando para si. — Meu nome é Karine. Tenho dezesseis e moro
aqui desde que nasci. Sou órfã, exatamente. Harry me criou. Aquele que você
conheceu. Ele parece meio desorganizado e um pouco frio, mas ele é uma ótima
pessoa quando você o conhece melhor. Ele é como se fosse um pai para mim.
Lizzy se solidarizou por Karine,
pois sabia melhor do que ninguém como era não ser criado por seus pais. A única
coisa que ela tinha de seus pais era uma foto que Miranda tinha mostrado. Ela
nunca falava sobre eles, nem mesmo sob insistência.
E a maneira como Karine falara
aquilo soou muito normal. Como se não a afetasse.
— Falando no Harry — ela
continuou — é ele que manda aqui. Ele é o diretor desde que eu nasci e referência
para os outros diretores aqui do continente. Apesar disso, não precisa ter
formalidades com ele ou com qualquer de nós. Com o tempo que a gente gastaria
com isso, estaríamos mortos.
Não havia passado pela cabeça de
Lizzy que aquilo pudesse se estender para outras cidades, outros países e até
outros continentes. Mas resolveu esperar Karine parar de falar para que pudesse
tirar suas dúvidas.
— Agora sobre o Jack — ela deu
uma piscadinha de cúmplice. — Com certeza você o achou bonito, não é? Todas as
garotas morrem por causa dele, mas ele nunca levou nada a sério. Ele é um ano
mais velho que eu e meio que fomos criados juntos, porque eu o conheço desde
que me lembro. Mas ele só veio morar aqui na Torre há uns três ou quatros anos,
não sei ao certo agora. Depois que o pai dele morreu.
— E a mãe dele? — Lizzy não
conseguiu se impedir de perguntar. A curiosidade bateu assim que Karine
terminou de falar.
— Ela morreu quando ele era muito
pequeno — a loira respondeu.
Lizzy se lembrou de que Jack e Christian
eram irmãos.
— Você não falou do Christian —
observou ela. — E eu sei que eles são irmãos.
Karine deu uma risadinha sem
graça.
— Eles são irmãos por parte de
pai. Assim, eles não falam muito sobre isso, mas o pai do Jack traiu a mãe dele
com a mãe do Christian. Inclusive, ela é uma humana. Mora bem longe daqui. Ela
sabe meio por cima da história, mas prefere não ficar no meio.
— Então existem — ainda soava
estranho falar aquilo — humanos entre vocês?
— Poucos — respondeu Karine. — A
gente não gosta muito porque fica difícil envolvê-los contra as bruxas. Eles
não têm a força necessária.
Vou fingir que tudo isso está
fazendo sentido, Lizzy pensou. Mas tinha que admitir para si própria que
estava adorando a animação de Karine e, principalmente, em descobrir que os
Caçadores de Bruxas agiam como os humanos.
— Já que você falou no Christian,
vamos lá — prosseguiu Karine. — Ele é o menino mais adorável que essa Torre já
viu. Isso porque ele descobriu sobre o meu mundo não tem pouco tempo. Ele
achava que era um humano com uma vida típica americana. Ele veio morar aqui na
Torre porque não queria deixá-lo sozinho.
A ideia de que Lizzy poderia ser
uma Caçadora de Bruxas desconhecida assim como Christian era soou como uma
piada e ela quis rir.
— Esses você conheceu — Karine
retomou a falar. — Falta você conhecer o Scott. Se você ver um garoto da nossa
idade e ruivo por aí, é ele. Ele pode ser irritante às vezes e fazer
brincadeiras que você não vai se sentir confortável. É parecido com o Jack, mas
sem um charme. E ele gosta mais de ler sobre magia do que combater. Eu consigo
deixá-lo no chão em poucos minutos de luta — ela se vangloriou.
— Tirando o Christian, você, Jack
e Scott parecem ser a mesma pessoa então — observou Lizzy e se arrependeu de
ter dito em você ao ver a expressão de raiva no rosto de Karine. — Era só
brincadeira.
Karine estreitou os olhos para
Lizzy. O que não durou muito, porque ela amando contar todas aquelas.
— Pense na Torre como uma escola
também. Temos três professores. Archer é professor de magia. Angelina é
professora da história do mundo demoníaco. Justin é nosso treinador. Mas eles
alternam seus cargos quando Harry os mandam para uma missão específica.
— Deve ser super interessante ter
aula de magia do que de matemática — observou Lizzy.
— Eles só nos ensinam como eles
são feitos e como eles podem nos afetar — disse Karine. — Não podemos fazer de
magia. É um crime mortal um Caçador de Bruxas que deseja fazer magia. Afinal de
contas, nós lutamos contra isso.
Lizzy se lembrou de algo da
conversa com Harry.
— Mas Harry mencionou as
feiticeiras...
— Elas são diferentes — Karine a
interrompeu. — Mas, ainda sim, não intrometemos com magia. As feiticeiras nos
ajudam quando precisamos de magia, é claro. Mas elas são em menor quantidade. A
maioria dos praticantes de magia sempre escolhem o lado do mal. Estávamos
apostando que você possa ser uma feiticeira.
— O quê? — Lizzy sentiu seu
estômago embrulhar.
A ansiedade pela fala de Karine
aumentou. Ela não sabia o que significava ser feiticeira, mas pela maneira como
a loira falava, fazer magia não era bom.
— Eu, Scott, Archer e Justin —
Karine falou naturalmente, como se não tivesse chamado Lizzy de feiticeira. —
Assim, você não nasce ou feiticeira ou bruxa. Depende do tipo de magia que você
escolhe praticar...
— Para, para! Você não pode me
chamar de algo que você não tem certeza. Eu sou normal!
Lizzy não tinha o propósito que
seu tom de voz se elevasse, mas foi isso que aconteceu. Karine recuou e
claramente estava envergonhada.
— Desculpe — ela pediu. — Nós
vamos ajudar você.
Lizzy odiou ter sido chamada de
feiticeira ou bruxa. Independente do objetivo do uso da magia, ela não queria
ser uma pessoa que sequestrava os outros sem qualquer motivo. Ela não queria
que sua vida tivesse sido uma mentira. Ela não queria estar naquele mundo onde
adolescentes eram obrigados a usar espadas e a matar criaturas de olhos
amarelos.
Como Lizzy não falou mais nada e
Karine estava desconfortável, a loira se levantou e saiu do quarto sem falar
nada, deixando Lizzy sozinha com seus questionamentos e pensamentos
torturantes. Especialmente, com seu medo sobre tudo aquilo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário