sábado, 9 de maio de 2020

Capítulo 3 - A Torre



Lizzy foi a última a entrar na Torre. Ela se encontrou em um cômodo grande, mas quase vazio, se não fosse por uma escada de uma largura enorme. No alto dela, Lizzy percebeu que havia corredores dos dois lados. Quando ela deu mais alguns passos, percebeu que de cada lado do cômodo se estendia um corredor que ela não conseguia ver para onde dava. As luzes iluminavam as paredes descascadas e o piso de madeira arranhado.
As paredes e escadas tinham um tom marrom escuro, o que escurecia o cômodo. Perto da escada, havia uma enorme janela, que estava coberta por uma cortina branca.
— Eu te disse que era feio — disse Jack, ao lado de Lizzy.
— Não é feio — retrucou Christian, censurando Jack e parando ao lado dele. — É porque ninguém cuida.
— Bom, o meu quarto é lindo — falou Karine. E se virou para Lizzy: — vamos, vou levar você até o Harry.
— Eu levo — disse Jack. Ele segurou a mão de Lizzy e saiu arrastando-a até a escada. — Prepare o meu almoço, Karine! — ele gritou, antes que ele virasse para o corredor do lado esquerdo puxando Lizzy.
Lizzy se sentiu dando voltas. Jack explicou que os dois corredores davam para o mesmo lugar, devido a forma circular da Torre. Eles passaram por várias portas, até que encontraram uma escada parecida com a da entrada, mas de tamanho menor.
— Desculpe, a Torre não conhece o elevador ainda — Jack falou. — Ainda bem que são só cinco andares. O escritório do Harry fica no terceiro.
Enquanto eles atravessavam o segundo andar, Jack afrouxou o aperto na mão de Lizzy, até que, quando pararam em uma porta dupla no terceiro, ele soltou sua mão. Ele deu um sorriso para Lizzy antes de bater duas vezes na porta.
Lizzy ouviu uma voz grossa gritar ‘’entre’’. Jack abriu a porta e entrou no cômodo, com Lizzy o seguindo. Era uma sala grande em que, do lado oposto ao da porta, havia uma grande mesa cheia de papéis e livros. De cada lado da sala, havia sofás e neles, tinha espadas e facas e Lizzy recuou ao ver aquilo. Em cada canto havia grandes armários e a sala estava decorada com quadros de paisagens e, o maior de todos, atrás da cadeira em que um homem estava sentado, era de uma mulher de cabelos castanhos e um vestido vermelho de época.
— Que formalidade foi essa, Jack? — perguntou o homem, levantando-se da cadeira e passando ao redor da mesa, aproximando-se de Jack e Lizzy.
— Queria mostrar para Lizzy que eu sou educado.
O homem olhou para Lizzy e estendeu a mão
— Meu nome é Harry, sou o diretor da Torre — ele se apresentou e Lizzy estendeu sua mão para cumprimenta-lo. — Deixe-nos sozinho, Jack.
Jack fez careta.
— Eu fiz todo o trabalho difícil e agora você me expulsa?
— Sim — Harry respondeu. — Saia.
Jack resmungou antes de sair do escritório. Lizzy olhou para Harry. Ele tinha cabelos castanhos curtos enfeitados por alguns fios brancos. Ela julgou que ele estava se aproximando dos quarenta anos. Os olhos dele eram verdes iguais ao Karine. A pele branca do rosto dele estava coberta por algumas rugas perto dos olhos e uma barba mal feita que se estendia até o pescoço.
Harry usava uma camisa de botões branca e uma calça preta, o que lhe dava uma aparência respeitável. Mas os olhos cansados passavam a impressão de alguém que há muito tempo não se cuidava.
— Bom, sente-se — ele ofereceu, voltando a sua cadeira e indicando uma das cadeiras do lado oposto à sua. — Esperava muito poder falar com você.
Lizzy o encarou antes de falar.
— Quem é você? Quem são aqueles malucos que me trouxeram para cá? E que tipo de homem tem olhos amarelos?
Lizzy tentou segurar o tom de sua voz no início, mas no final de sua última pergunta, se viu gritando e em pé.
Novamente, Harry indicou a cadeira para Lizzy e ela voltou a se sentar.
— Você precisa ter calma — disse ele. — Esse tipo de situação não acontece muito por aqui.
— Que tipo de situação? — ela questionou.
— De trazer uma humana para a Torre.
Assim que disse isso, Harry se recostou em sua cadeira e cruzou as pernas. Ele observou Lizzy, talvez esperando que ela dissesse alguma coisa. Quando ela continuou em silêncio, absorvendo as últimas palavras dele, Harry se inclinou para frente, as mãos alcançando a mesa.
— Nós somos Caçadores de Bruxa, Lizzy — continuou ele. — Aquele homem que estava com você era um demônio. A criatura que te perseguiu ontem era um demônio menor. Provavelmente estavam trabalhando para uma Grande Bruxa.
— Bruxa? — perguntou Lizzy, arqueando uma sobrancelha. — Você está me dizendo que existem bruxas.
Harry soltou um riso baixo.
— É isso, Lizzy. Quase nunca temos essa conversa porque nem demônios e nem bruxas perseguem humanos. Eles simplesmente o usam. Provavelmente você não vai entender, mas eles te prenderam em uma outra dimensão.
Lizzy ficou boquiaberta, sem tirar os olhos de Harry.
— Porque você tinha algo que eles queriam — ele continuou. — E julgaram que você era forte, a ponto de te prenderem. — Ele voltou a se recostar na cadeira e a cruzar as pernas. — Bom, são minhas suposições.
Lizzy tentou assimilar as palavras de Harry. E então chegou à conclusão de que continuava não entendendo absolutamente nada. Julgando que aquelas pessoas não fossem lunáticas e praticantes de algum culto, não fazia sentido alguns demônios e bruxas perseguirem-na porque ela só era uma simples garota de dezesseis anos do Brooklyn.
— Isso não faz sentido algum — disse ela, inclinando para frente e colocando seus braços em cima dos papéis da mesa. — Eu sou normal.
Harry respirou pesadamente.
— Pelo visto, não é, Lizzy. — Ele parou, parecendo lembrar-se de algo. — Qual seu sobrenome?
Ela pensou em questionar, mas desistiu quando viu que não adiantaria nada.
— Duncan.
— Não conheço nenhum Caçador de Bruxas ou feiticeiro com esse sobrenome — falou Harry. — Quem é sua família?
Lizzy se sentiu desconfortável com o rumo da conversa, pois odiava falar de seus que pais não conhecia e de sua tia que a desprezava.
— Eu só tenho minha tia — respondeu. — E ela não é ninguém.
— Ela pode ser...
— Não! — Lizzy o interrompeu. — Ela não é ninguém. Eu posso garantir isso. Ela não passa de uma mulher desprezível, só isso.
Harry parece ter percebido que esse não era um assunto que Lizzy se sentia confortável, pois mudou o rumo da conversa.
— Nós vamos ajudar você — Harry disse. — Esse é o nosso trabalho.
— Como é o trabalho de vocês? Caçar demônios? — Lizzy riu.
— Há muitos anos, surgiu magia no mundo — explicou Harry. — Surgiram as bruxas, as feiticeiras e os Caçadores de Bruxas, que têm a obrigação de proteger esse mundo. Bruxas são perigosas e usam a magia negra para fazer o mal. As feiticeiras são o contrário delas e constantemente nos ajudam. Essa mulher aqui — ele virou-se para o quadro atrás dele e apontou para a mulher de vestido vermelho — foi a Primeira Caçadora. Luna Jones.
Os traços da pintura pareciam ter sido bem feitos. Lizzy não poderia saber se o quadro era idêntico à mulher apresentada, mas cada traço parecia ter sido com extremo cuidado. O cabelo castanho estava preso no alto da cabeça e alguns fios caíam na frente do rosto. O pescoço estava com alguns colares de ouro e nas orelhas, pendiam brincos pequenos e de ouro também. Havia um decote discreto do vestido vermelho da cor de sangue. No quadro, a mulher estava apresentada somente até a cintura, mas mesmo com poucos detalhes, como os lábios grossos com um meio sorriso, os olhos castanhos pequenos e a pele extremamente pálida, Lizzy julgou como uma mulher muito bonita.
— Ela parecia ser muito bonita — ela resolveu dizer.
— Ela era uma guerreira — disse Harry. — A melhor que já existiu.
Harry levantou-se e Lizzy fez o mesmo.
— Fique aqui hoje — ele propôs. — A Torre tem vários quartos e a maioria está desocupado. Vou colocar meus Caçadores de Bruxas para investigar o que está acontecendo.
— Todos eles são...
— Sim. Todos que você encontrar aqui na Torre.
Lizzy mordeu o lábio, nervosa. Não tinha como ela passar uma noite na Torre sem que Miranda não soubesse. Quando ela voltasse, iria ter que lidar com a fúria de sua tia. Mas se fosse embora, Agares e Blair poderiam voltar e fazer coisas piores com ela.
— A minha tia...
— Eu entendo — Harry interrompeu, aproximando-se de Lizzy. — Depois podemos ajudar você a se explicar. Pelo menos por hoje, fique aqui. Se preferir, ligue para ela e invente alguma coisa.
Lizzy resolveu não fazer piada sobre um homem incentivando-a a mentir para sua tia, até porque Harry aparentava ser muito sério.
— Eu perdi meu celular — respondeu ela. — Melhor eu me resolver com ela depois, se eu for ficar aqui. Ou ela vai rodar Nova York inteira até me achar.
— Como preferir.
Ficar junto com os Caçadores de Bruxas — pensar nisso fazia seu estômago revirar porque parecia muito patético — na Torre e ficar sem dar notícia para Miranda faria com que sua tia surtasse. Lizzy estremeceu ao pensar no que ela poderia fazer depois. Na hora, veio na sua cabeça lembranças de quando ela tinha uns doze anos e ficava horas na casa de Lucie. Quando isso acontecia, Miranda aparecia com sua ira pegando fogo e arrastava Lizzy pelos cabelos, literalmente.
Contudo, ficar na Torre também significava ficar longe de Miranda. O pensamento a fez querer dar pulos de alegria. Ela só queria seu celular agora para que pudesse mandar várias mensagens felizes para Lucie.
— Como isso vai funcionar? — perguntou ela, inclinando a cabeça para o lado.
— Vou mandar alguém para investigar a casa onde você estava — respondeu ele. — Hoje à noite. Amanhã vou poder te dar algumas respostas.
Lizzy pensou naquele lugar que parecia deserto, nas expressões no rosto de Jack que parecia que ele não levava nada a sério e nas reclamações da Karine. Ela chegou a conclusão que se não morresse por Agares, morreria de tédio.
— Espera aí! Eu vou ficar aqui fazendo o que?
Harry encolheu os ombros.
— Bom... — seu rosto ficou pensativo. — São só algumas horas. O sol já está se pondo. Daqui algumas horas você pode querer... dormir?
Lizzy suspirou. Aparentemente, Harry era a pessoa menos indicada para lhe dar conselhos sobre o que fazer. Ela olhou para a mesa dele, cheia de papéis e livros. No chão, perto da mesa, ela ainda conseguiu ver duas canetas.
Ela tinha acabado de conhecer Harry, mas tudo naquele escritório indicava que ele não conhecia a palavra organização. E, provavelmente, não conseguia se desligar de seu trabalho.
— Vamos, vou te levar para escolher um quarto — disse Harry. — Você pode querer ficar sozinha para assimilar as coisas. Não é fácil.
— Como você pode saber que não é fácil? Você já foi perseguido e deu de cara com adolescentes super mal educados e metidos?
Lizzy esperava tudo, menos que Harry caísse na risada.
— Lizzy, eu convivo com eles todos os dias. Eu sei que não é.
Harry alcançou a maçaneta, girou-a e a porta se abriu. Lizzy o seguiu quando ele saiu do escritório e ela e o diretor da Torre se viram encarando Jack sentado no chão e olhando para os dois com olhos inocentes.
— Oh, que surpresa encontrar vocês — disse Jack, levantando-se. Lizzy reparou que ele ainda estava com a mesma roupa preta e suja.
— Quando eu mandei você sair, não disse para ficar do lado de fora escutando — censurou Harry, mas Lizzy não conseguiu sentir raiva no tom de voz dele.
— Pensei que você poderia precisar de algo — disse Jack, sorrindo de orelha a orelha. — Afinal, estou aqui como seu aprendiz.
Harry estreitou os olhos para Jack, mas não respondeu.
— Vou levar Lizzy para um dos quartos. Acho que ela precisa ficar um pouco sozinha.
— Eu levo — Jack se prontificou. — Não se preocupe.
Harry olhou para Lizzy, que deu de ombros. Jack parecia ser meio insuportável, mas ficar perto de Harry lhe dava vontade de apresentá-lo a um espelho e, talvez, a uma terapia.
— Por mim, tudo bem.
Lizzy teve a impressão que ouvir Harry resmungar, mas ele só voltou para o escritório e fechou a porta. Ao desviar os olhos da porta para Jack, o viu olhando-a com expectativa.
— Vamos? — ele chamou. — Tem um quarto no segundo andar que era de uma menina que morava aqui. Acho que vai gostar dele.
— Ela foi embora porque achou um lugar mais bonito para morar? — perguntou Lizzy enquanto seguia ao lado de Jack para a escada que levava ao segundo andar.
— Ela morreu — respondeu ele tranquilamente.
Lizzy ficou envergonhada.
— Desculpe.
— Relaxa. Ela deve estar queimando no inferno agora.
Aquelas palavras só fizeram Lizzy se sentir pior. Além de ela ter zombado da morte de alguém, Jack simplesmente não se importava. O pior era que ele conhecia a garota. Ela imaginou o que ele faria se fosse a morte dela, uma desconhecida para ele.
Os dois desceram as escadas e pararam em frente a uma porta. Jack contou alguma nos dedos e balançou a cabeça negativamente e então seguiu para a porta do quarto ao lado. Abriu a porta e entrou, com Lizzy em seu encalço.
O quarto era maior que o de Lizzy. Diferente do piso na entrada da Torre, o deste quarto estava conservado e mais limpo. A pintura era do mesmo tom que a Torre e o escritório de Harry. Do lado oposto a porta havia uma enorme janela aberta e as cortinas de um tom salmão estavam puxadas, de modo que Lizzy conseguia ver o horizonte lá fora. Do lado direito havia uma cama de casal com uma colcha dourada e vários travesseiros e almofadas. Perto, havia uma escrivaninha e alguns livros empilhados. Do lado esquerdo, havia um espelho que deveria ter uma altura maior que a de Lizzy, uma penteadeira pequena e um guarda-roupa embutido na parede. Ao adentrar mais no quarto, viu uma porta ao lado da janela aberta.
— O que achou? — perguntou Jack, caindo na cama, com os braços atrás de cabeça. — Lacey era uma megera, mas tinha bom gosto. Ali — apontou para a porta ao lado da janela. — É o banheiro. Acho que ela deixou alguns produtos femininos. Deve ter algumas roupas no guarda-roupa também. Aposto que Karine pegou.
Lizzy fez careta ao pensar em usar coisas de uma menina morta que ela nem conhecia.
— Ou, então, Angelina deve ter queimado — continuou Jack, espreguiçando-se. — Ela é um pouco cética.
— Cética? — Lizzy perguntou, andando pelo quarto, inspecionando-se.
Jack sentou-se ereto.
— Ela morreu de uma forma meio... esquisita.
Lizzy encarou Jack, esperando que ele continuasse.
— Morte súbita. Mas, para mim, alguém a enfeitiçou e o feitiço foi tão forte que resistiu a barreira da Torre. Ela morreu assim que voltou de uma missão.
— Que barreira?
— Demônios e magia negra não conseguem entrar na Torre — respondeu ele. — Então, agora temos quase certeza de que você é coisa boa.
Lizzy sorriu falsamente ao ser chamada de ‘’coisa boa’’. Jack devolveu um sorriso cheio de dentes e voltou a se deitar na cama.
— Você está realmente todo sujo deitado na cama que eu vou dormir essa noite?
Jack levantou-se.
— Desculpe. Vou tomar um banho. Quer vir comigo?
Lógico que Jack não estava falando sério, mas Lizzy não sabia como responder aquilo. Apesar de achá-lo um pouco insuportável, ele era muito bonito e um charme exalava dele sem que ele fizesse nada. O cabelo dele estava um pouco bagunçado, o que o deixou ainda mais bonito.
— Estou brincando, anjinho. No momento, nós somos apenas amigos.
Lizzy queria discutir com ele e dizer que não tinha acreditado, mas ele foi o rápido o suficiente para dizer um ‘’eu já volto’’ e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Ao se aproximar da cama, viu que a sujeira da roupa de Jack não havia contaminado a colcha ainda.
Finalmente sozinha, ela sentou na beirada da cama e respirou pesadamente. Um peso estava em suas costas e seu estômago se revirava cada vez mais. Ela não cansava de repetir para si mesma o quanto aquela situação era louca e queria desesperadamente que aquilo fosse só um sonho ou uma alucinação. Mas ela sabia que não era.

***

Jack saiu do quarto de Lizzy rindo consigo mesmo. Uma de suas diversões no momento estava sendo ver Lizzy desconfortável com suas brincadeiras. Ele não a conhecia, mas apostava que ela estava achando-o insuportável e querendo jogar nele todos os xingamentos que conhecia.
No caminho para o seu quarto, Jack parou em frente às portas duplas do quarto andar. Ao mesmo tempo que ele achava a Torre pequena por fora, ele a achava uma mansão por dentro. Era fácil se perder ali e, mais fácil ainda, confundir os cômodos. Ao levar Lizzy para o quarto que era de Lacey, ele quase entrou no quarto de Scott.
Ele odiaria se deparar com Scott sem roupa, porque o idiota tinha a mania de quase nunca trancar a porta. Experiência própria e recente para Jack.
Ele estava de frente às portas que levavam a sala de reunião na Torre. Como Nova York era uma das principais cidade no mundo demoníaco, não era raro que acontecesse reuniões ali. Apesar de Harry ser bastante desorganizado com seu escritório, ele era admirado por outros líderes de outras Torres e muitos o visitavam, inclusive feiticeiras e fadas.
As risadas fizeram com que Jack entrasse na sala. Não havia muito coisa dentro, a não ser uma extensa mesa com várias cadeiras ao redor e uma lareira que só era acendida no inverno. Sentados nas cadeiras estavam Karine Morgan, Scott Hayward, Archer Kobald e Justin Dumpsey.
A risada alta de Karine se extinguiu com o barulho da porta se abrindo, mas quando ela viu que era Jack, voltou a rir. Scott olhou com desprezo para Jack enquanto passava a mão pelo cabeleira ruiva. Os olhos castanhos do garoto seguiram Jack enquanto ele puxava uma cadeira e se sentava.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou ele, colocando os pés em cima da mesa.
— Você está todo sujo, Jack — censurou Archer. — Vá tomar um banho.
Archer e Justin atuavam como professores e assistentes de Harry. Diferentemente de Angelina Freen, que mantinha uma carranca e uma postura rígida com os adolescentes, Archer e Justin agiam quase que como eles. Eram dois homens que beiravam aos trinta anos e estavam na Torre porque, ou sua família estava toda morta (como no caso de Archer), ou simplesmente gostava de Nova York e não queria pagar um lugar para morar (como no caso de Justin).
— Eu estava indo, mas não resisto a uma conversa com risadas — respondeu Jack, sorrindo para Archer, de cabelos pretos e olhos castanhos escuros.
Ele tinha uma pele morena e um sorriso brilhante e branco, muito semelhante à Justin. Vestia-se sempre com camisas de botões e calças de linho. No ano passado, na comemoração do aniversário dos Caçadores de Bruxas Originais, Jack se divertiu com Archer e Justin conquistando várias mulheres.
— Estávamos falando da nova convidada — respondeu Justin, de cabelos castanhos na altura dos ombros e olhos cinzentos. Diferentemente de Archer, Justin amava camisetas lisas e calças jeans. — Karine também estava se vangloriando da bruxa que ela quase matou.
— Saiu fumaça igual carne queimada — Karine falou.
— Harry já conversou com ela? — Archer quis saber. — É Lizzy, não é?
— Sim — respondeu Jack. — Ela está no quarto que era de Lacey agora. Tomara que não se assuste com o fantasma dela.
Karine bufou.
— Você está parecendo Angelina falando desse jeito — disse ela. — Pelo menos temos mais uma menina agora. Essa Torre está tão vazia e com tanta testosterona.
— Você que não quis aproveitar Lacey enquanto ela estava aqui — Scott brincou. — Ou qualquer outra das meninas que passaram por aqui.
— Elas sempre me tratam como criança — Karine falou, irritada.
— Olha, eu não deveria dizer isso — começou Justin — mas li uma das cartas que Harry recebera que um Grupo das Caçadas Especiais vai vir para Nova York. Pode chegar presença feminina aqui.
Karine deu de ombros.
— Que seja — disse ela, levantando-se. — Todo mundo das Caçadas Especiais é velho e chato.
Na mesma hora, a porta se abriu e Harry entrou na sala de reuniões. Jack se divertia porque Harry sempre se irritava ao ver que a sala de reuniões havia se tornado um ninho para fofocas. Ele sempre levava aquele lugar muito a sério.
— Sabia que estavam aqui — disse ele, aproximando o suficiente para que pudesse puxar uma cadeira e sentar, mas não o fez. — Archer e Justin, quero que investiguem a casa para onde levaram Lizzy hoje. Jack, passe todas as informações sobre a localização para eles.
— O quê? — Jack ficou irritado. — Você deveria me mandar para investigar! Eu que fiquei o dia inteiro vigiando a Lizzy, eu que consegui passar pela barreira que aquele demônio havia colocado. É hora do meu triunfo.
— Você nem se deu ao trabalho de tomar um banho e já quer outra missão? — questionou Harry. — Além do mais, você precisa dormir.
Jack queria protestar e fazer alguma piada, mas não conseguiria disfarçar o quanto estava cansado. Ele passara quase a madrugada inteira observando a casa de Lizzy depois de levá-la de volta. Havia sido um golpe de sorte ele ver o demônio menor e o segui-lo até a casa da garota. Quando o amanhecer dera seus primeiros indícios, ele voltou para a Torre e contou o que havia acontecido para Harry, mas sem dar detalhes.
Afinal, Harry não precisava saber que Jack saía quase noite para investigar a morte de seu pai. Ou ele teria uma punição maior que aquela que Harry quisera dar para ele por se envolver em uma caça não autorizada.
— Tragam qualquer coisa que vocês acharem importante, qualquer informação, qualquer detalhe — Harry continuou. — Não podemos manter uma humana na Torre.
— A gente estava fazendo uma aposta, Harry — revelou Karine. — Archer acha que é uma humana que vai ser usada para um ritual. Justin e eu achamos que é uma feiticeira perdida. Já Scott só a acha uma idiota mesmo.
Scott deu de ombros.
— A sorte não bateu na porta dela. Ter uma bruxa atrás de você deve ser péssimo — disse ele.
— Lacey que o diga — resmungou Jack.
Harry revirou os olhos.
— Parece que hoje a aula vai ficar por conta da Angelina — disse Archer. — Ela vai acabar com a gente — ele falou para Justin.
— Ela vai é acabar com a gente — Scott murmurou.
— Passem na minha sala mais tarde — disse Harry para Archer e Justin. — E não deem detalhes para Jack. Ele está proibido de sair da Torre essa noite.
Jack se levantou rapidamente e encarou Harry furioso.
— Você só pode estar brincando! — ele gritou. — Eu salvei a Lizzy.
Isso não ignora o fato de que você estava em uma missão sem a minha permissão — falou o diretor da Torre. — E, por favor, vá tomar um banho!
Harry saiu da sala de reunião. Jack nem olhou para os outros e também saiu. Ele se dirigiu para o quinto andar e então, seguiu para o seu quarto. Era um dos maiores quartos da Torre e mantinha a mesma pintura que o resto dos cômodos. O guarda-roupa grande e escuro ficava do lado oposto ao da porta. Do lado direito estava a janela aberta e, do lado dela, a cama bagunçada. De frente à sua cama, havia uma mesa grande o suficiente para que Jack pudesse depositar todas as suas bagunças, de acessórios até facas sujas que ele demorava para limpar.
Seu olhar grudou em sua cama de uma forma que ele não se conteve. Arrancou a roupa suja e caiu em sua cama, agradecendo mentalmente por finalmente ter um descanso.

***

Lizzy estava deitada cama entediada e pensativa quando a porta se abriu em um estrondo. Uma figura loira e baixa apareceu em sua frente. Karine havia tirado a roupa usada especialmente para matar bruxas e agora estava usando uma blusa preta e justa de mangas curtas, shorts jeans e tênis preto. Parecia uma garota normal de dezesseis anos.
Lizzy achava Karine uma das meninas mais bonitas que já vira. Ela, sem dúvidas alguma, seria uma das garotas populares do colégio e que todos os meninos fariam de tudo para namorar. Até mesmo quando ela cruzava os braços e ficava te olhando com um olhar mortal.
— Estou entediada — disse ela. — Vamos fazer alguma coisa, humana.
A voz de Karine era firme o suficiente para Lizzy fazer com um arrepio subisse pelo corpo dela.
— Humana? — questionou Lizzy. — E você é o quê?
Karine descruzou os braços e riu. Ela se aproximou e se sentou na beirada da cama.
— A próxima Caçadora de Bruxas mais admirada do mundo demoníaco.
Lizzy suspirou. Já estava cansada de todos aqueles termos, ‘’Caçadores de Bruxas’’, ‘’demônios’’, ‘’mundo demoníaco’’, ‘’Torre’’ e alguns mais que ela nem conseguia se lembrar. Parece um mundo totalmente distante e de filme.
— Entendi — Lizzy resolveu dizer.
Karine estava olhando para a outra menina com expectativa, a qual ela não respondeu. Lizzy acabou dando de ombros, por não saber mais o que dizer.
— Vamos fazer o seguinte — Karine disse, levantando-se e colocando as mãos na cintura. — Eu vou te apresentar a tudo sobre o meu mundo. Assim, você vai ficar mais legal e vai se empolgar comigo. De qualquer maneira, depois que tudo isso acabar e você for embora, suas lembranças sobre isso vão ser apagadas mesmo.
Lizzy se levantou rapidamente, revoltada.
— Como assim apagar minhas lembranças? — ela gritou. — Isso é um abuso!
Karine revirou os olhos.
— Para de ser boba — falou ela. — Não tem por que você querer saber sobre tudo o que eu vou te contar. Você nem vai ver as coisas que você viu de novo. Antes que isso seja, você vai ser morta. Bruxas e demônios não deixam rastros. E ninguém quer saber de humanos dando palpites que eles acharem serem o certo. Temos as nossas próprias regras aqui, querida.
Apesar de achar um absurdo, Lizzy sabia que Karine tinha razão. Seria muito perturbador saber da existência daquele mundo e nunca saber quando você poderia ser trazido para o meio disso ou não. Ela passara todos os seus anos em Nova York sem sequer imaginar que algumas das histórias que lera sobre demônios ou bruxas pudesse ser verdade. Ela nunca vira nada. Nem ela e nem ninguém.
— Até porque — continuou Karine — se você comentasse sobre isso com alguém, ninguém acreditaria. Você só está acreditando porque está vivendo isso e viu uma bruxa fazer magia na sua frente.
Lizzy reparou que Jack e Karine eram muito parecidos em suas atitudes. Ela já havia cogitado a ideia de que eles pudessem ser namorados, mas e se fossem irmãos? Os dois eram loiros, tinha a mesma atitude de superioridade e de dono da razão, apesar de que Karine era mais séria.
E, agora que pensara, ela realmente precisava saber das coisas que Karine, Harry e Jack falavam para ela. Ela sequer sabia alguma coisa das pessoas ao seu redor.
— E então? — questionou Karine. — O que me diz? Aceita ser divertida por alguns momentos e ter a melhor professora do mundo demoníaco ao seu dispor?
— Aceito.
Karine deu pulinhos de alegria. Mais feliz do que Karine havia ficado com a aceitação de Lizzy, só Lucie quando era mimada por seus pais.
— Pois bem — disse Karine, aproximando-se de Lizzy e pegando as mãos dela. Ela sentou-se na cama, levando a outra garota consigo. — Vamos começar com os moradores aqui. No momento, não tem muitos. Dois meses atrás, haviam quase trinta pessoas morando aqui. Mas hoje, somos em... — ela parou, contando nos dedos. — Hoje nós somos apenas oito.
— Por que diminuiu tanto assim? — perguntou Lizzy.
— Ah, dois morreram semana passada — ela explicou. — Teve dois meninos que foram embora duas semanas atrás. Outros, acabaram voltando para o Conselho Supremo...
— Conselho Supremo? — interrompeu Lizzy, fazendo careta.
— A gente vai chegar nessa parte ainda — respondeu Karine. — Continuando, as pessoas vêm e vão. Fiquei sabendo que vão chegar mais ainda essa semana. A Torre é ótima quando se é nova na cidade, mas depois, você descobre que existem lugares mais modernos.
Lizzy queria fazer uma observação sobre aquilo, mas a garota loira não deu tempo e continuou falando.
— Começando por mim — disse ela alegremente e apontando para si. — Meu nome é Karine. Tenho dezesseis e moro aqui desde que nasci. Sou órfã, exatamente. Harry me criou. Aquele que você conheceu. Ele parece meio desorganizado e um pouco frio, mas ele é uma ótima pessoa quando você o conhece melhor. Ele é como se fosse um pai para mim.
Lizzy se solidarizou por Karine, pois sabia melhor do que ninguém como era não ser criado por seus pais. A única coisa que ela tinha de seus pais era uma foto que Miranda tinha mostrado. Ela nunca falava sobre eles, nem mesmo sob insistência.
E a maneira como Karine falara aquilo soou muito normal. Como se não a afetasse.
— Falando no Harry — ela continuou — é ele que manda aqui. Ele é o diretor desde que eu nasci e referência para os outros diretores aqui do continente. Apesar disso, não precisa ter formalidades com ele ou com qualquer de nós. Com o tempo que a gente gastaria com isso, estaríamos mortos.
Não havia passado pela cabeça de Lizzy que aquilo pudesse se estender para outras cidades, outros países e até outros continentes. Mas resolveu esperar Karine parar de falar para que pudesse tirar suas dúvidas.
— Agora sobre o Jack — ela deu uma piscadinha de cúmplice. — Com certeza você o achou bonito, não é? Todas as garotas morrem por causa dele, mas ele nunca levou nada a sério. Ele é um ano mais velho que eu e meio que fomos criados juntos, porque eu o conheço desde que me lembro. Mas ele só veio morar aqui na Torre há uns três ou quatros anos, não sei ao certo agora. Depois que o pai dele morreu.
— E a mãe dele? — Lizzy não conseguiu se impedir de perguntar. A curiosidade bateu assim que Karine terminou de falar.
— Ela morreu quando ele era muito pequeno — a loira respondeu.
Lizzy se lembrou de que Jack e Christian eram irmãos.
— Você não falou do Christian — observou ela. — E eu sei que eles são irmãos.
Karine deu uma risadinha sem graça.
— Eles são irmãos por parte de pai. Assim, eles não falam muito sobre isso, mas o pai do Jack traiu a mãe dele com a mãe do Christian. Inclusive, ela é uma humana. Mora bem longe daqui. Ela sabe meio por cima da história, mas prefere não ficar no meio.
— Então existem — ainda soava estranho falar aquilo — humanos entre vocês?
— Poucos — respondeu Karine. — A gente não gosta muito porque fica difícil envolvê-los contra as bruxas. Eles não têm a força necessária.
Vou fingir que tudo isso está fazendo sentido, Lizzy pensou. Mas tinha que admitir para si própria que estava adorando a animação de Karine e, principalmente, em descobrir que os Caçadores de Bruxas agiam como os humanos.
— Já que você falou no Christian, vamos lá — prosseguiu Karine. — Ele é o menino mais adorável que essa Torre já viu. Isso porque ele descobriu sobre o meu mundo não tem pouco tempo. Ele achava que era um humano com uma vida típica americana. Ele veio morar aqui na Torre porque não queria deixá-lo sozinho.
A ideia de que Lizzy poderia ser uma Caçadora de Bruxas desconhecida assim como Christian era soou como uma piada e ela quis rir.
— Esses você conheceu — Karine retomou a falar. — Falta você conhecer o Scott. Se você ver um garoto da nossa idade e ruivo por aí, é ele. Ele pode ser irritante às vezes e fazer brincadeiras que você não vai se sentir confortável. É parecido com o Jack, mas sem um charme. E ele gosta mais de ler sobre magia do que combater. Eu consigo deixá-lo no chão em poucos minutos de luta — ela se vangloriou.
— Tirando o Christian, você, Jack e Scott parecem ser a mesma pessoa então — observou Lizzy e se arrependeu de ter dito em você ao ver a expressão de raiva no rosto de Karine. — Era só brincadeira.
Karine estreitou os olhos para Lizzy. O que não durou muito, porque ela amando contar todas aquelas.
— Pense na Torre como uma escola também. Temos três professores. Archer é professor de magia. Angelina é professora da história do mundo demoníaco. Justin é nosso treinador. Mas eles alternam seus cargos quando Harry os mandam para uma missão específica.
— Deve ser super interessante ter aula de magia do que de matemática — observou Lizzy.
— Eles só nos ensinam como eles são feitos e como eles podem nos afetar — disse Karine. — Não podemos fazer de magia. É um crime mortal um Caçador de Bruxas que deseja fazer magia. Afinal de contas, nós lutamos contra isso.
Lizzy se lembrou de algo da conversa com Harry.
— Mas Harry mencionou as feiticeiras...
— Elas são diferentes — Karine a interrompeu. — Mas, ainda sim, não intrometemos com magia. As feiticeiras nos ajudam quando precisamos de magia, é claro. Mas elas são em menor quantidade. A maioria dos praticantes de magia sempre escolhem o lado do mal. Estávamos apostando que você possa ser uma feiticeira.
— O quê? — Lizzy sentiu seu estômago embrulhar.
A ansiedade pela fala de Karine aumentou. Ela não sabia o que significava ser feiticeira, mas pela maneira como a loira falava, fazer magia não era bom.
— Eu, Scott, Archer e Justin — Karine falou naturalmente, como se não tivesse chamado Lizzy de feiticeira. — Assim, você não nasce ou feiticeira ou bruxa. Depende do tipo de magia que você escolhe praticar...
— Para, para! Você não pode me chamar de algo que você não tem certeza. Eu sou normal!
Lizzy não tinha o propósito que seu tom de voz se elevasse, mas foi isso que aconteceu. Karine recuou e claramente estava envergonhada.
— Desculpe — ela pediu. — Nós vamos ajudar você.
Lizzy odiou ter sido chamada de feiticeira ou bruxa. Independente do objetivo do uso da magia, ela não queria ser uma pessoa que sequestrava os outros sem qualquer motivo. Ela não queria que sua vida tivesse sido uma mentira. Ela não queria estar naquele mundo onde adolescentes eram obrigados a usar espadas e a matar criaturas de olhos amarelos.
Como Lizzy não falou mais nada e Karine estava desconfortável, a loira se levantou e saiu do quarto sem falar nada, deixando Lizzy sozinha com seus questionamentos e pensamentos torturantes. Especialmente, com seu medo sobre tudo aquilo.

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